O café esfriou na mesa da cozinha E o relógio na parede insiste em gritar O silêncio é uma nota que eu já conheço Um peso no peito que me impede de respirar Abro as janelas, mas o Sol não me aquece Sou um fantasma em um quarto que já foi meu E eu cansei de fingir que o mundo ainda gira Enquanto o meu chão resolveu desabar É uma tristeza mansa, que não faz barulho Mas que inunda a casa se eu deixar de lutar Estou naufragando em um mar de águas rasas E o pior de tudo é não querer me salvar As fotos na estante são de gente estranha Que sorria por nada e não tinha medo do escuro Hoje as cores fugiram por entre os meus dedos E eu construí um castelo cercado por muros Não é que eu queira ir Eu só queria não estar Nesse intervalo cinza Entre o sono e o despertar Dizem que o tempo cura, mas o tempo é o carrasco Que assiste de longe a gente se apagar Cada batida do coração é um esforço Que eu já não sei se vale a pena sustentar A luz da rua pisca E se apaga outra vez E eu fico aqui Esperando o vazio Me dizer quem eu sou