O Sol invade o quarto feito um soco-inglês Acordo assustado, já é a nona vez Eu não preciso do sono pra ver o monstro chegar O pesadelo é o hábito de ter que respirar Calça furada, meia trocada, figurino do nada Pés descalços no asfalto, a pele viva, queimada Sou o personagem do filme que o cinema esqueceu Onde o herói é o silêncio e o vilão sou eu E o tempo é um rio que corre ao contrário Eu giro o ponteiro do meu calendário E sinto que o vão entre o passo e o chão Vira o gatilho da minha Canto um murmúrio de tristeza Canto o que o espelho não confessa Canto porque a alma é uma floresta Densa, imensa, onde ninguém resta Canto o reflexo no rio poluído Canto o meu sonho interrompido O olfato morreu, não sinto o cheiro da flor O cinza do asfalto sequestrou minha cor Meus olhos são jaulas de um brilho opaco Guardam desejos quebrados no caco Caminho em lodo de vidro sob os pés Cada passo sangra o que eu fui, o que eu serei Não sou o normal, não sou o que se espera Sou a fera descalça no fim da era Não tenho espelho, o vidro é turvo No curso da água, meu corpo é curvo Preso ao vazio, suspenso no breu Se Deus não me viu Quem sou eu? Eu sou o eco do que não nasceu! Canto Mesmo em ruína Canto Mesmo em queda Canto Porque a dor ensina Canto Porque a dor me resta Canto o reflexo no rio poluído Canto o sonho interrompido Canto Canto Eu não sei quem eu sou Preso ao nada No lodo De vidro