Ainda que perdida na gaveta da memória Debaixo de certezas que escolhi ignorar Não posso estar surpreso ao saber que aqui está De volta a pior parte que escrevi da minha história Num velho e apodrecido pensamento de rascunho Escrito em letra feia com a burrice do imprudente Que fez de suas linhas o capítulo doente Que foi sem ser notado outro fim de vida em junho E ler fora de hora seus parágrafos disformes Me soa perfurar a cicatriz com canivete E dar um fim à vida, a outra e outra não diverte Da forma que eu lembrava dos silêncios que não dormem Mas antes era pouco e de tão pouco fez-se torto O ato de fingir que havia força no sarcasmo Que hoje me revira e faz da dor o frágil espasmo A vomitar por cima desse meu arquivo morto Mas morto não devia se calar pra todo o sempre? Ou se ousar retorno, pelo menos dê um aviso? Porque se for pra ser a mesma merda de improviso Eu devo confessar que não sei mais olhar de frente A minha cara triste a escolher nessa paleta Qualquer variação que me esconda a cor da morte A escorrer dos olhos o que antes me fez forte E hoje é tão somente a mesma folha na gaveta Que transformou o medo no maior dos meus assombros E amarelou o riso que nem sei se um dia tive Mas que de qualquer jeito não impede a queda livre Que me exige ver o que guardei entre os escombros Do cínico desejo de não ser somente a lama Mas se for pra ser algo que então seja algo que importa Porque viver assim é como não abrir a porta Com a chave entre os dedos de quem ama