De todos os sentimentos que nos tomam Nos preenchem E nos transbordam De todas as vontades Pedidos, desejos e orações por milagres Só há um único incômodo Às vezes, tão habitual E acostumado a existir dentro da gente Que esquecemos de nos livrarmos dele E o transformamos Despropositadamente Em nosso pior pesadelo A nos tirar noite de sono E nos trazer dias de fúria Por deixá-lo pousar levemente em nosso dorso E sussurrar aos ouvidos Como uma velha maldosa que mira o defeito de outros Tão somente para esconder o que é nosso O que não devia ser nosso Porém quando se torna nosso Exige recuar o ataque E admitir sem ensaio A parte que nos cabe de culpa Eu sei, você sabe Mas tanto você quanto eu finge devaneios para não ter de assumir Quando se passou do ponto Quando se foi mais por menos E quando o nosso exagero Na ânsia de se mostrar certo Achou por bem ignorar o que havia perto E manter bem longe o que nos deixa menor Tão menor que quase sumimos Tão menor que faz com que risos Saiam travados Entredentes, em vários bocados Compreendidos como deboche No momento em que deviam ter leveza Vistos como sarcasmo Nas horas frias das incertezas Que podem nos deixar agir De modo impensado No ímpeto de avaliar sozinho Que estar do lado certo é estar do próprio lado Deixando de lado Do lado de fora, que fique bem claro Qualquer sintoma ou sinal de razão Por isso eu me culpo Me ergo do chão e, com calma, me culpo Se em todo esse tempo Eu fui incapaz de aceitar que me cabe Senão tudo, certamente o pedaço maior De tudo que vi repetir Nos meus lábios de ódio E nos meus olhos de choro Como se os atalhos sombrios Que se tornaram madrugadas perdidas Em canções desencontradas Fosse de responsabilidade - um tanto contratual E outro tanto por minha única decisão - Sua, apenas sua, e de mais ninguém E nós sabemos que não é Nem bem assim, nem nada perto disso Já é hora, agora, nesse minuto, pra já Faça silêncio que vou entoar Aquilo que sei que você sempre quis É minha Vou repetir para não ficar dúvidas É minha Totalmente minha Unicamente minha A culpa da tragédia que quis roteirizar Com o seu protagonismo É tão somente minha e eu preciso explicar É minha porque eu baixei a guarda Mesmo sabendo o quão baixa, vil e mesquinha Mesmo ciente da auto zombaria Da malícia, do vazio moral e da fraude Que te vestiram por todo esse tempo Enquanto mentia com a depravação dos perversos Enquanto se enganava Apostando a vida dos outros E colocando pra jogo Um jogo podre, mal visto e imbecil De contar moedas com o dinheiro dos outros De disfarçar com perfumes baratos O cheio de merda que exala dos fracassados Que, assim como você Vivem da sinestesia de ser metade podridão E metade carniça Veja só e tente discordar Como não seria minha a culpa Se fui eu que ignorou os avisos Se fui eu que não dei importância às placas Que já nem avisavam perigo Ou muito menos cuidado Porque sabiam Da mesma forma que eu devia saber Que quanto alguém como você Um resto de estrume Um sulco de chorume Um misto de esgoto e escárnio Sobrevivente de uma mitomania merecida Não teria nada para oferecer Além do desbunde vagabundo Dos protótipos falidos de gente Que entre o descarte no lixo comum E o banquete dos ratos Enojados com sua existência Teve um tempo digno Para transformar em imundície E memória purulenta A se desinfetar com ácido A estadia nos dias Que lhe foram emprestados Por confiança e sem juros Mas lhe viu esfregar as entranhas pegajosas Sob a cama, o chão, o tapete, as paredes E fazer dos répteis mais asquerosos Um exemplo sutil de repulsa comedida Ah, a minha culpa! Minha, minha, só minha, tão minha Que caminha bamba Nessa espiral de vingança Que é incapaz de lhe desejar o mal Porque desejar é pouco Quando o que se precisa Pra deixar a alma livre E o peito cheio de qualquer coisa Que me faça voltar a adormecer Que me deixe tentar, ao menos Dar mais dois ou três passos Nem que seja para lhe enfiar na garganta Sem sequer saber se nela cabe Essa porra de vidro de pelos O resto do resto que você causou E obrigá-la a engolir e mastigar Cada pedacinho afiado e pontiagudo De todos esses cacos de vidro Cacos de memória E cacos de desgraça Que se exigem mais do que ritos Mais do que preces E muito mais do que vontades Eu não preciso considerar uma só regra Porque quando não se tem nada a perder Não há um motivo sequer Para não se perder também o controle Largar a mão de quem for E tirar o braço do próprio ombro Afinal Eu descobri Finalmente eu descobri A localização exata onde foi que me perdi Mas quando tentei E juro, como eu tentei! Me tirar do fundo do poço Veio você Com toneladas de boas intenções E fez a única coisa que sempre fez muito bem Destruir! E deixar rastros Lamacentos rastros Na gaveta de memórias No pensamento de rascunhos E nos parágrafos disformes Mas no meu caso No meu mais sincero caso Que seja de joelhos Ou seja apoiado sobre meus escombros Ainda assim Vai ficar barato E muito Muito barato Te mostrar e sorrindo Que nem o mais impiedoso demônio Teria coragem de dar a alguém o que você me deu Então, vá por mim Ou vá puta que te pariu Mas vá agora Vá logo Porque se demorar a ir Pode ser que se arrependa Do dia em que me fez decidir Sem outra opção Morar dentro de mim Pra sempre