Bela tarde de uma quarta-feira Que te vi sair de casa pra jantar E passaste à minha beira sem calçado e sem carteira E até deixaste a porta por trancar Estavas bela mesmo sem saber De camisa rota e timidez E acabei por não conter a vontade de te ver Ao passar a porta número 23 E quente ficaria a minha mão Apenas por pousar na tua Incapaz de ouvir a prescrição De não passar na tua rua Tua distração encantadora Revelou-se em tudo quanto vi Desde as calças de pintora mais a alma faladora De quem fala sobretudo só pra si Foi nas horas vagas da semana Tal e qual espião enamorado Desvendaste-me a paisana ao dizer: Meu nome é Ana E despi o medo de ser humilhado E quente lá ficou a minha mão Apenas por pousar na tua Já nem quis saber da prescrição De não passar na tua rua Já nem o doutor me quis tratar Deste caso sério de paixão Não é falha ocular e demência nem pensar Foi só este apaixonar sem intenção Foi só este apaixonar sem intenção