O sábado pairava O tempo preso no ar Como se a história Tivesse esquecido de passar Esqueceu de contar Os anos em que procurei Um amigo em cada irmão Um sinal de vida em cada olhar Esqueceu de medir A dor que não fecha O silêncio dos que andam Por desertos sem promessa Desertos do desamor Da indiferença Da espera Mas ouvi Teus passos No fundo do escuro No silêncio mais antigo Tua voz me chamou pelo nome Não gritou Sussurrou E o tempo se rasgou Homem morto, acorde Vem viver Sábado em silêncio Por certo, Ele morreu Mas desde quando houve Impossível para Deus? A dor da sexta-feira Ainda mancha o chão Mas Tu caminhas comigo No vale da sombra E a última palavra é Tua Homem morto, acorde Vem para fora Este é o som Que nasce no vale profundo Um canto baixo Que venceu a morte e o mundo Rola a pedra O medo cede As feridas respiram Ele sopra E o peito entende Vem viver Vem viver Este é o som Que devolve o fôlego aos ossos Abram a cova Eu vou sair Eu vou viver Para Deus Ainda que na figueira Não floresça o amanhã E o vinho perca o gosto Da festa que sonhei Tua mesa me espera No chão da escassez Tu unges minha fronte Onde só havia talvez Pois onde piso Tu fazes chão Onde eu caio Tu fazes pão Teu cajado me encontra Quando eu não sei voltar Meu peito aprende o caminho Dos pastos Onde a alma pode deitar Mesmo no escuro Teu bem me alcança E minha alegria Aprende o ritmo Da esperança Abram a cova Eu vou sair Eu vou viver Eu vou viver para Deus