Fiquei sabendo das últimas pelas bocas dos outros Ó Sylvia, com dois filhos para criar e a tristeza e a angústia presas no peito de mulher branca Nem acredito que você foi primeiro que eu mesmo Teve a morte que eu estava almejando para mim mesmo E, meu Deus!, ainda protegeu seus dois filhos E deixou leite quente para eles, porque você os amava Você poderia ter me amado também, como eu amo seus versos Ó Sylvia, tenho inveja de você Fama é algo que sempre corri atrás E depois do ocorrido, seus poemas tiveram fama Você é famosa agora Se eu fizesse isso comigo, eu também seria famoso? Alguém teria inveja de mim como eu de você? Alguém me amaria? Escreveriam sobre mim? Coisinha loira, você me roubou! Teve a morte que eu queria A morte que conversamos com anne sobre Pensei que tínhamos nos curado quando bebemos naquele bar sujo Depois que lemos nossos poemas e nem fomos aplaudidos de pé Pensei que tínhamos combinado alguma coisa, sua estúpida E agora? O que eu vou fazer? Nem você, nem Anne estão aqui para mim como eu estou para vocês, suas ingratas Lembro como se fosse ontem, a gente saindo daquele bar sujo, bêbados mas fumando Tragando tão fundo quanto a alma, falando sobre a morte que você fez questão de me roubar Um perfeito golpe de marketing E sobre o nosso desespero Você tinha dois filhos e eu? Nada Nada me impedia como impedia a você Você tinha o amor de dois e eu não tinha amor Eu sou poeta, daqueles sem fama alguma Que finge ser profundo, mas é supérfluo Que sonha demais e esquece de viver Com um emprego que eu não queria Que fuma nos intervalos e embebeda com vodca de verão Eu sou artista Sem amor Sem dinheiro Sem criatividade Sem talento Sem vontade de viver Sem felicidade Ó Sylvia, ó Anne, como eu sinto falta de vocês Mas raiva por terem me deixado Como vocês puderam fazer isso comigo? Logo eu, eu que nunca Isso não ser lido por ninguém Ninguém vai me aplaudir de pé Naquele bar imundo Ou na estação de trem Ou clube de coisas estranhas e obscuras Ou nas aulas de artes dramáticas O clube da poesia me enxotou de lá e minha família Vai querer me colocar naquela prisão de paredes brancas Numa camisa de força, meu maior medo Eu não sou louco, eu não sou louco Eu não sou louco, eu não sou louco Me tirem daqui, me tirem daqui Eu gostaria de ser um poeta renomado Vários livros, vários cheques Ideias revolucionárias, visionário Inteligente, bonito, profundo Que escreve em cafés chiques de Paris Bebericando capuccino enquanto olha a vista pela janela, regarder um papillon voler Umas sete e meia da manhã Matin froid avec un cadavre Queria saber línguas vivas e mortas Sylvia Mas eu não sou e eu estou por aqui ainda Com minha velha máquina de escrever Que eu ainda nem tenho, mas falo que tenho tentado parecer culto Caçando algum magnata com algum jatinho particular Cartões de crédito como se fossem navalhas passando pela garganta Sangue-puro e dourado como ouro líquido Que me patrocine ou me ame Já que eu estou por aqui ainda Ó pobre coisinha loura, ó pobre mãe cuidadosa Com a cabeça no forno Onde fizemos aquele delicioso bolo de cenoura à la brasileiro, que as crianças tanto gostaram Nem tive coragem suficiente para olhar você Porque você já não fazia mais parte daqui Seria torturante para mim olhar Porque eu queria ser você, desejava estar ali Tapei os olhos para não ver você Você já era um ser evoluído Tudo estava tão frio Cabelo loiro Pele pálida e gélida Como se fosse papel molhado que se pôs por um acaso no congelador As crianças no quarto vedado com frio Janelas abertas O leite outrora quente já esfriava Os biscoitos não tinham gosto Eu não sei se as crianças choraram Mas eu chorei o mar inteiro, a se perder de vista