A cidade pisca em códigos Que ninguém traduz Passos dissolvem nomes No reflexo azul Um semáforo cansa o tempo No mesmo lugar E no vidro do ônibus Alguém quase quis ficar Há um mundo suspenso Entre um andar e outro Elevadores guardam segredos Que nunca chegam ao topo O vento bagunça histórias Presas nos fios de nós E você atravessa o instante Como quem nunca se reduz E por um segundo O ruído falha Existe algo vivo Entre prédios que não se tocam Um intervalo invisível Onde as horas não desmoronam Se eu fecho os olhos A cidade se desfaz em nós E no espaço entre os sons Alguém ainda escuta a voz Café frio, palavras mornas Pairando no ar Um riso escapa torto Sem querer se explicar As luzes tremem nas poças Como memórias sem dono E o mundo segue inteiro Mesmo quando abandono Talvez tudo isso nunca tenha sido real Só um ruído bonito No fundo desigual Ou talvez seja aqui Nesse quase, nesse meio Que a vida acontece Sem pedir roteiro Existe algo vivo No que não se pode segurar Um detalhe esquecido Que insiste em ficar E no caos que nos cerca Sem começo ou depois Há um instante mínimo Que ainda é nós