Não sou desse tempo em que tudo passa Antes mesmo de ser dito ou sentido Trago um idioma antigo na garganta E um silêncio profundo, aprendido Escrevo desde quando era menino Quando o mundo ainda tinha demora Hoje os versos tropeçam no caminho De quem vive sem dentro, sem agora Grito baixo nos cantos do papel Ninguém ouve, mas sigo mesmo assim Há um resto de céu no meu pincel E uma fé que não cabe no fim Se a amada não vê o que carrego Não é falha do dom, nem castigo Nem todo amor entende o segredo De quem faz da palavra, um abrigo O mundo mudou eu sei, mudou demais Tornou raro quem sente e traduz Mas enquanto houver dor que não sai Haverá quem precise da luz E se o tempo disser que terminei Sorrio, escrevo e sigo sozinho Poesia não pede lugar Ela nasce Onde existe Coração E caminho