Hoje eu quero a rosa mais linda que houver E a primeira estrela que vier Para enfeitar a noite do meu bem Hoje O ano é 2130 e um homem solitário pinta Algo na parede com tinta Uma mão em forma de reza, segurando uma rosa linda E ao lado uma poesia, sequestrando a monotonia da cidade cinza Uma criança pergunta pra mãe, franzindo o cenho O que são essas letras e esse desenho? E a mãe, assustada, desacreditada com o que via Responde com espanto: Isso é um artista Sem saber que isso ainda existia E o filho responde: Artista? Achei que era algo pré-histórico Pra que fazer arte se as máquinas hoje já fazem com mais repertório? É como a comida que já não se planta no solo e é feita em laboratório E ao mesmo tempo se via a auspiciosa emoção infantil em seus olhos O ano é 2130 e um homem solitário pinta algo na parede com tinta O artista é uma múmia num sarcófago, um datilógrafo, uma profissão extinta Saciando de arte essa sociedade faminta Artistas já foram o pesadelo dos déspotas O que dizem os poetas são como granadas com pétalas Protejam as flores, as abelhas e as crianças Às vezes um ato de amor será a nossa maior vingança Um pobre artesão que ainda faz por paixão, não por cifrão Ou quem sabe então por teimosia e resistência Foi um ato político, um protesto, um mero gesto de sobrevivência Ou um jeito milenar de reivindicar sua existência? Um fato tão raro que causou comoção Pessoas paravam na rua pra ver esse fóssil vivo dessa espécie em extinção Pare o mundo, algo louco aconteceu Um homem escreveu um poema com a própria mente e a própria mão Nesse momento uma lágrima escorreu e a criança entendeu Essa não é a artificial, é a arte oficial O dia que uma linda rosa e uma poesia num mural Desafiaram a ordem no coração da capital Acordei desse sonho em lágrimas, escrevi o que vi numa página Percebi que nossa arte não é máquina, é mágica Cuidado pra que ela não se transforme nessa distopia trágica Mera mercadoria numa linha de fábrica Artistas já foram o pesadelo dos déspotas O que dizem os poetas são como granadas com pétalas Protejam as flores, as abelhas e as crianças Às vezes um ato de amor será a nossa maior vingança Antes falavam de luta de classes e nobres causas Antes falavam de Marx, hoje só falam de marcas O rap e o Funk viraram palanque de novas pautas E o principal não é uma vida salva, mas um vídeo em alta Mas o tênis que se calça vende uma vitória falsa Pois pra grande maioria o essencial ainda falta Sou cria dos anos noventa, sei que é diferente O rap que fala que senta e o rap que fala o que sente O que segue o algoritmo e o que segue algo íntimo O que copia o hit do que é poesia e ritmo Eu sei a diferença do que fica e do que finda Do que é IA e do que é ainda Por isso escrevo com alma para que você sinta Daqui até 2130, pra que o coração de uma criança minha arte atinja E tinja das cores mais lindas, existe esperança ainda (Eu vi) uma rosa nasceu no concreto da cidade cinza Tenha fé, porque até, truta Tenha fé, porque até, truta Tenha fé, porque até No lixão nasce flor Tenha fé, porque até, truta Tenha fé, porque até, truta Tenha fé, porque até No lixão nasce flor