Não tenho tempo pra sorrir Nem tenho lágrimas pra chorar O que é que eu tô fazendo aqui Trancado neste lugar? Não tenho tempo pra sorrir Nem tenho lágrimas pra chorar O que é que eu tô fazendo aqui Trancado neste lugar? Já faz um tempo que sozinho aqui estou trancado 12 janeiro de vivência, 11 natais passados Mais uma vez eu espero e nada acontece Meu aniversário, de novo a minha mãe esquece Sou criado pela vó que é doente Com chagas, feridas pelo corpo das surras mal curadas Mesmo cansada das correntes da lida da roça Enfrentou tudo e a todos pra me salvar da foça Eu nasci pela parteira, filho de mãe solteira Que não curtiu ver meu rosto e me chamou de monstro Que me jogou numa privada e deu descarga Ela tinha disritmia, a mente perturbada É o que minha vó me diz e eu tento entender Sou o fruto de um estupro, mas não pedi pra nascer Sobrevivi ao Cytotec e às agulhas de tricô Quis me ver escorrendo, só que Deus não me deixou Eu não entendo, não entendo Sou um filho de um ato que necessita alguém sofrer Por seu prazer estar saciado Ajuda vó, ajuda! A dor no peito é tão forte A vida não me brinda, eu sou mais um órfão da sorte Não tenho tempo pra sorrir Nem tenho lágrimas pra chorar O que é que eu tô fazendo aqui Trancado neste lugar? Não tenho tempo pra sorrir Nem tenho lágrimas pra chorar O que é que eu tô fazendo aqui Trancado neste lugar? Infância dura e transtornada logo aprendi Sorrir pra mim é um detalhe, não sei fingir E na direta eu confronto contra o tal destino Meu pai trancado no seguro porque estou vivo Olho no espelho e me vejo e lembro dele Será que ele é igual a mim, eu sou igual a ele? O mesmo rosto, a mesma face, mas não o caráter Mais um Jack condenado pela sociedade Supremo choro que não vem, nunca chorei Os sonhos que sempre sonhei, nunca terei Jogar bola, soltar pipa e brincar no lago Ganhar um beijo da minha mãe, pelo meu pai ser carregado Loucura, delírio, às vezes sonhar acordado De um lado a vítima, minha mãe, do outro lado o réu, meu pai culpado Transtorno emocional, estado depressivo Queria ser normal, queria estar vivo Já faz um tempo que eu luto contra a vida, louco De algum jeito aqui por dentro já me sinto morto O mal de Alzheimer me ataca, eu entro em choque A saúde não me brinda, eu sou mais um órfão da sorte Não tenho tempo pra sorrir Nem tenho lágrimas pra chorar O que é que eu tô fazendo aqui Trancado neste lugar? Não tenho tempo pra sorrir Nem tenho lágrimas pra chorar O que é que eu tô fazendo aqui Trancado neste lugar? Eu sofro por um dia, uma vida por segundos Segundos de loucura que me trouxe pra esse mundo A desgraça foi a farsa, o teatro foi montado Adolescente crente, na mata, foi estuprada Horror, horror! Chocou a sociedade Julgaram mais um preto ali mesmo, e a verdade Moleque de maior, aparentando os 18 Roupa alinhada, bem-vestido, dá até gosto Na escola era o primeiro, orgulho da família Era cobiçado por várias menininhas Juízo o se tinha. Preto velho era responsa Ponho a minha mão no fogo, ele não fez nada pra essa moça O medo dos seus pais fez com que ela mentisse Meu avô era o terror, revoltado ele disse Eu mato esse preto e ponho ele atrás das grades Já fazem 13 anos sem a liberdade Minha vó não concordava, e me trouxe à visita Ela sabe que a errada, sempre foi a sua filha Com o coração ferido. Meu pai me conheceu Com lágrimas nos olhos me contou o que aconteceu Com rodas, minha cadeira, eu nasci tetraplégico Se ouve a minha voz, é a voz do pensamento Minha mãe tirou a vida, depois disso, vê se pode Hoje é o aniversário de mais um órfão da sorte Não tenho tempo pra sorrir Nem tenho lágrimas pra chorar O que é que eu tô fazendo aqui Trancado neste lugar? Não tenho tempo pra sorrir Nem tenho lágrimas pra chorar O que é que eu tô fazendo aqui Trancado neste lugar?