Os dias escorrem, as horas corroem Nas mãos que tremem, minutos que morrem A rede se expande, o aço floresce Enquanto a carne no chão apodrece Pilhas de corpos, progresso de lodo O silêncio devora o que resta do todo E o peso não é o que eu sou, é o que faço O erro consciente, a angústia que eu trago Entender que o centro não é meu lugar Que existir é o fardo de quem sabe olhar Acordar no abismo e ver que a verdade É a sobra amarga da minha vontade É um vácuo no peito, fé destruída Depois de entregar o que resta da vida Afeto, carinho, o sangue no altar Mas o tempo é tudo que não vai voltar! A faca nas costas, um corte profundo Mas dói mais o erro de ser desse mundo Dizem que o vício da cura sou eu Pra caber nesse reino que já apodreceu Eu não aceito! Eu não aceito! Não vou me quebrar pra moldar meu conceito! Não vou me dobrar pro sistema imperfeito! Tentei ser o espelho, mudei minha forma Até virar sombra, seguindo a norma Mas ser melhor é deitar nos espinhos Sorrir pro carrasco, trilhar seus caminhos Aplaudir o chicote que açoita o que pulsa Enquanto a alma, ferida, lamúria Eu escolho o meu peito, a batida que dói A consciência viva que o ego destrói Prefiro a lucidez de um inferno constante Do que a paz anestésica de um ignorante! Eu não vou dissolver o que eu sou pra amar O que o meu instinto mandou desprezar É melhor a punição de sentir e saber Do que a anestesia pra sobreviver Eu não aceito! Eu não aceito! Não vou me vender pra caber nesse meio! O relógio parou! O tempo Acabou! E ainda há força nas mãos pra escrever Eu não vou parar! Posso cair! Posso quebrar! Em mil cacos no chão eu vou me espalhar! Mas mesmo em ruínas, eu sigo em frente! Até que o fim decida me buscar Mesmo depois, eu vou continuar No peito de quem amei, no rastro do que eu escrevi Fragmentos de um homem que ainda não saiu daqui Memórias mortas, registros ao léu Até que o pó me devolva pro céu Que venha o peso! Que venha a dor! Que venha o fim com seu frio e seu horror! Eu sigo sentado, olhando o colapso Sentindo o aperto do tempo no espaço De cabeça erguida! De olhos abertos! Que venha o caos nos meus dias incertos! Eu vou esperar Sentado