Há quem procure, nas palavras, o vestígio oculto do sentimento Ou o silêncio ensurdecedor de sua ausência Mas existe uma palavra que recusa ser apenas signo Ela é morada, é arquitetura viva, é ruína habitada ao mesmo tempo Uma casa vasta, de cômodos que se contradizem Corredores que levam a lugar nenhum e janelas que dão para o abismo de si mesmo Nela se aglomeram afetos órfãos, primos distantes que mal se reconhecem Desejo e medo, doação e posse, eternidade prometida e finitude inevitável Entrar nesse lugar Observá-lo com olhos abertos É gesto de radical coragem Ou talvez de insensatez Ou, mais precisamente, de uma necessidade existencial que não se explica A urgência de decifrar o indecifrável De habitar o que nos habita antes mesmo de sabermos seu nome Todas as palavras carregam gravidade Algumas são facas disfarçadas de carícia Outras são portas que nunca mais se fecham Mas entre todas, há uma que concentra Em suas quatro letras frágeis A totalidade da aposta humana: Amor Dizer amor é pronunciar um contrato ontológico sem cláusulas de saída É abrir mão, ainda que por instantes, da ilusão soberana do eu isolado É permitir que outro, ou a ideia de outro Instale-se dentro de nós como presença inalienável Mesmo quando o corpo já partiu Mesmo quando o tempo já corroeu o que um dia foi promessa Pois o amor não é sentimento apenas, é estrutura É a tentativa sempre incompleta de construir um lar onde caibam dois infinitos É o espaço onde o outro se torna espelho, ferida, salvação e naufrágio Tudo ao mesmo tempo Dentro dessa casa chamada amor habitam O êxtase que beira o divino O tédio que sussurra o absurdo da existência O perdão que desafia a lógica da justiça E a dor que nos lembra, com cruel gentileza, que somos mortais E há ainda um mistério mais fundo Quando dois seres se encontram de verdade nesse espaço As paredes se dissolvem O dentro e o fora perdem o sentido O que resta é um único pulsar Não mais meu nem teu, mas simplesmente ser Um instante em que o universo parece lembrar-se de sua unidade primordial Antes de se fragmentar em nomes, corpos e despedidas E no entanto, mesmo nesses raros momentos de fusão, permanecemos sós Pois o amor, em sua essência mais radical Não nos salva da solidão Ele nos ensina a habitá-la com dignidade A carregá-la junto ao peito do outro Como quem carrega, ao mesmo tempo A própria ruína e a única casa possível Ysrael Soler