Eu quis a paz, a luz Amarela brilhando no Natal A magia da esperança Um roteiro de final Pintar a calçada Vestir a cor da bandeira Acreditar que a harmonia Não é só brincadeira Eu quis o hino alto O orgulho de nação Mas abri os olhos E vi a encenação A beleza é um cercado Com arame e guarita E a cidade modelo pra Quem é pobre, não habita Não adianta passar tinta Cara pra esconder o mofo A paz de vocês é o Silêncio do meu sufoco Dizem que é junto e misturado Mas a conta não bate É o luxo e a lama perto Mas em mundos de embate A cidade é um cartão-postal Mas é postal pra quem? Se o Sol que entra no centro No meu bairro não vem Chamaram a professora De heroína e de guerreira Pra mascarar que ela Ensina na lama e na poeira Chamaram o guarda de Herói na missão arriscada Pra esconder que a estrutura Do estado é furada Como calar alguém Senão deixar morrer? Matar Quem se levanta incomoda Mas precisa falar Não existe cidade exemplar Com fome e vil agonia Quando o sangue escorre E tiros viram sinfonia O patrão te chama de filho Te dá um tapinha no ombro Mas se chove e a casa desmorona Ele te deixa no escombro Diz que quem trabalha conquista Que é só correr atrás Mas a cor da sua pele Dita o tamanho da sua paz Eles postam foto de rede A vila estética e limpa Mas dizem que o erro é o pobre É o que o sistema garimpa Dizem que o povo destrói Que não tem educação Mas quem ergueu o Palácio com calo na mão? Não adianta passar tinta Cara pra esconder o mofo A paz de vocês é o Silêncio do meu sufoco Dizem que é junto e misturado Mas a conta não bate É o luxo e a lama perto Mas em mundos de embate A cidade é um cartão-postal Mas é postal pra quem? Se o Sol que entra no centro No meu bairro não vem O verde não é a mata O amarelo não é o ouro É o sangue da realeza de quem Sempre viveu do nosso choro Dia da independência Mas liberdade de quê? Se o povo foi libertado Sem ter o que comer? O indígena de paz era O indígena que aceitou o açoite A nossa harmonia é O lucro mantido na noite Não venha com o discurso De que somos todos iguais Enquanto o CEP define Quem morre e quem vive em paz A desigualdade caminha Lado a lado com Ágnus-dei Quem apanha aprende que Calar é o peso da lei A vitrine precisa ser linda Pra justificar a matança E a limpeza do centro é O que enterra a lembrança Não adianta passar tinta Cara pra esconder o mofo A paz de vocês é o Silêncio do meu sufoco Dizem que é junto e misturado Mas a conta não bate É o luxo e a lama perto Mas em mundos de embate A cidade é um cartão-postal Mas é postal pra quem? Se o Sol que entra no centro No meu bairro não vem