O divino não grita do alto do trono dourado Sussurra no gesto frágil, lento, quase ignorado Habita o riso cansado de quem já viveu demais E o silêncio de um jovem esquecido nos recantos sociais O sagrado não mora no excesso nem na vitória final Mas na mão que treme ao tocar o que o mundo chama de banal O eterno brota onde a lógica diz que nada vai nascer No chão rachado da vida que insiste em florescer O amor não promete triunfo, não vende salvação É afeto que humaniza sem pedir explicação Tudo aquilo que fere, separa, oprime e exclui Não vem da fonte da vida, somente a dilui Não luto pra vencer num jogo viciado e cruel Luto pra ser leal ao que resta em mim de fiel Fracassar é coragem num sistema que corrompe Negar o aplauso fácil que a consciência rompe Confundem sucesso com o pódio, o acúmulo, o capital Mas vencer explorando os demais é derrota moral Existir já é perda, é falha, é limitação Um vazio que pulsa no centro do coração Esse buraco não fecha, não pede solução É espaço de criação, não de compensação Mas o mercado transforma a falta em mercadoria Vende ilusões embaladas em falsa euforia Do luxo ao abandono, ninguém permanece presente Todo corpo é passagem, todo tempo é ausente Viver no desejo imposto, num roteiro que te lesa É morrer antes da morte, é uma vida que não se preza Então pergunta sincera, que ninguém pode calar O que é justo pra tua história? Como você quer estar? Quem você é quando o sistema não dita o papel Quando sobra só o osso cru do que é mel e fel? Que o próximo ano te ensine a falhar sem reservas A fazer da ruína uma forma de escolha que preserva Que da falta nasça sentido, da queda, direção E que desabroche humanidade ao redor do chão Porque o divino resiste onde tudo parece ruir Na empatia que insiste, no cuidado em existir Guerreiros do absurdo, seguimos sem ilusão Com ternura, lucidez e firmeza no diapasão Eu não luto pra vencer Eu sei que vou perder Eu luto pra ser fiel a mim Até o fim