Onde o horizonte se dobra em cinza Há uma pedra que jamais se desliza Não é o peso do mineral, nem do limo Mas do corpo que espera o mar como destino Enquanto homens lavam as mãos na espuma Chamavam a covardia de, vontade que consuma A lógica era um nó cego, um devotado enredo Se as águas te pouparem, és milagre, segredo Se as águas te tomarem eras mácula e dor E assim o mundo se absolvia do teu terror O frio sobe pelas canelas, o sal invade o ar E a Lua faz o serviço que o homem não quer pagar Os séculos mudaram a face do carrasco Mas o nó permanece, firme no seu espaço A maré agora não é mais feita de água É feita de asfalto, de silêncio e mágoa Do vácuo entre a janela e o chão Da escuridão à beira do portão Onde a infância morre em qualquer canto Sem aprender da vida o seu encanto Ontem, a pedra de afogamento Hoje, por que ela estava lá? É o tormento Ontem, o julgamento das águas Hoje, vestes, rotas e risos nas mágoas A mão que amarrava a corda na maré baixa É a mesma que hoje silencia e desvia a faixa Apaga o rastro e diz que ela sumiu Como se mulheres fossem fumaça e não grito que fluiu E o busto de pedra continua ouvindo o mar rugir Observando o vaivém sem jamais fugir O ódio não envelhece apenas muda de tom Enquanto o mundo espera Deus fugindo do que é som Ontem, a pedra de afogamento Hoje, por que ela estava lá? É o tormento Ontem, o julgamento das águas Hoje, vestes, rotas e risos nas mágoas O ódio não envelhece, apenas muda de tom Enquanto o mundo espera Deus, fugindo do que é som– Onde o horizonte Se dobra Em cinza