Do alto do prédio, a gárgula observa Cada detalhe dessa rochosa selva Cada nuance de luz em meio às trevas Até onde o olhar alcança a tênue relva A esta altura, tudo é minimizado A dor do outro, como se estivéssemos imunizados Vira manchete breve no noticiário E some, esquecida como mais um presidiário Ninguém deseja um desconfortável confronto Mantenha a esperança do fim mágico do conto Assim, o respeitável público caminha tonto E todos acabam vistos como pequenos pontos Há os pontos de exclamação Que enxergam tudo com muita emoção Existem os de interrogação Sempre a questionar qualquer ação E há também, nas curvas dos sinais Os pontos que encontram seus finais Ah, as fortuitas reticências Indicando o mistério da existência Vírgulas, quando precisas, a inspirar A breve pausa para melhor respirar E surgem dois pontos pela alameda Para que a explicação, por fim, suceda Ponto e vírgula no peito, a pausa que nos mede Entre o que pesa e o que a alma ainda não cede A gárgula viu a dor, o espelho da aflição Mas no fim do verso, há sempre uma exclamação Não somos mais traços, nem símbolos inertes Somos a força que o confidente travessão insere Do colossal terraço, a cidade se espalha Em linhas de luz que dançam sobre o concreto O vento sopra histórias, mas a audição falha E cada vida lá embaixo, traços em um texto discreto Entre taças de cristal e murmúrios elegantes Sinto que até nós, passageiros do instante Somos símbolos numa frase ainda inacabada Pontuações fugazes em meio à infinita estrada O horizonte se curva em brilhos e sombra E cada semáforo acende perguntas na noite As avenidas, rios de carros e passos que assombram Carregam histórias marcadas pelos açoites Algumas janelas revelam sorrisos furtivos Outras guardam silêncios de vidro e realidade concreta E percebo que cada gesto humano é um ponto lenitivo Uma pausa, uma exclamação, uma dúvida secreta As lâmpadas piscam como aspas duplas em suspensões De momentos urbanos que insistem em existir E entre risos e brindes, nos tornamos travessões Destacando breves frases de afetos a persistir Talvez os prédios, elevados como pensamentos Sejam ponto e vírgula, convidando à meditação E nós, sentados aqui, contemplando a cidade Aprendemos a escrever nossa própria verdade Ponto e vírgula no peito, a pausa que nos mede Entre o que pesa e o que a alma ainda não cede A gárgula viu a dor, o espelho da aflição Mas no fim do verso, há sempre uma exclamação Não somos mais traços, nem símbolos inertes Somos a força que o confidente travessão insere