Saudade, todo mundo sempre diz Não se encontra em qualquer país É da nossa gente esse gemido Uma dor de tudo que foi querido Tem saudade de lugar e de coisa querida De pessoas, de amores e do passado Tem saudade boa e saudade dolorida De quem é vivo, de quem é lembrado E a maior, de tudo que foi perdido Êta saudade da conversa na calçada Bica d'água, leiteiro de madrugada Horta no quintal e jardim sempre florido E de manhã bem no centro da cidade Êta saudade, da média requentada A leitura do jornal, a humildade O cumprimento logo na chegada Uma palavra valia mais que garantia Êta saudade, da honra e hombridade Quem era certo e respeitoso nada temia Quem se desviava a liberdade perdia O final de semana era todo da família Etâ saudade, do almoço de domingo De manhã bem cedo, a missa, a homilia A tarde de repouso, saudades que ainda sinto Veio a modernidade, no campo e na cidade A pressa se incumbiu de afastar a sociedade O tempo sumiu, todo mundo anda ocupado Pai e mãe, filho e filha, todos sempre calados Tanta coisa perdida, um pedaço da vida Êta saudade, dos bons tempos, da mocidade Do carrinho de lomba, campeonato de botão Fila na locadora, tomar café com pão Ligar no orelhão, pesquisar na Barsa Todo mundo no vizinho, olhar televisão Um disco na vitrola, na sala a reunião Curso de datilografia, encerar o chão Album de fotografia, capa no botijão Fita cassete, cinema, o tubarão