Sete da manhã, o despertador Odeio o som, mas hoje odeio mais O teu lado da cama está frio, vazio Dos teus cheiros, restam só sinais Levanto-me e vou à casa de banho A tua escova de dentes ainda lá está Ao lado da minha, parece um insulto A lembrar-me que já não vens cá Abro o frigorífico, só para o fechar Fazer torradas só para um, não sabe igual Tudo o que eu faço é automático Mas falta-me o teu bom dia habitual Eu sou um novo sozinho, a tentar perceber Como é que a rotina consegue doer É o teu champô no duche, que eu não deito fora É olhar o telemóvel à espera, a toda a hora Eu sou um novo sozinho, e o que me custa mais São estes detalhes tão banais É o espaço a mais que tenho no sofá É o silêncio que grita que tu não estás Saio de casa, entro no carro, ponho o cinto A rádio toca aquela que tu gostavas Aumento o som, tento não pensar Nas vezes que a cantavas (e desafinavas) Passo no supermercado ao fim do dia E quase compro o teu iogurte Dou por mim a meio do corredor É um soco no estômago que nem aguento Chego a casa, não há luz acesa Não há ninguém para me perguntar como correu? Aquilo a que eu chamava espaço É só um vazio que agora é meu Eu sou um novo sozinho, a tentar perceber Como é que a rotina consegue doer É o teu champô no duche, que eu não deito fora É olhar o telemóvel à espera, a toda a hora Eu sou um novo sozinho, e o que me custa mais São estes detalhes tão banais É o espaço a mais que tenho no sofá É o silêncio que grita que tu não estás Quem me dera voltar atrás Ao nosso último jantar Eu queixava-me do trabalho E tu rias sem parar Era o banal, o nosso dia-a-dia Era a desarrumação da tua roupa no chão Mal eu sabia Que isso era a minha perfeição Eu sou um novo sozinho, a tentar perceber (Como é que a rotina consegue doer) É o teu champô no duche, que eu não deito fora É olhar o telemóvel à espera, a toda a hora Eu sou um novo sozinho, e o que me custa mais São estes detalhes tão banais É o espaço a mais que tenho no sofá É o silêncio que grita que tu não estás São as tuas chaves que já não estão na entrada É o meu novo sozinho E não me sabe a nada