Eu conheci a costa num navio de bandeira Me chamavam de peça, sem direito a descansar Fui pra fazenda, em menos de uma semana A lida era tirana e me obrigavam a trabalhar Eu comecei a ter medo Quando o feitor apontou para mim Em vinte e quatro horas, tudo muda na história Perdi minha memória, longe do meu jardim E mais uma vez, eu me vi preso no trauma Cicatriz na minha alma Minha vida sumiu O meu povo nunca mais me viu O trauma, cicatriz na minha alma Minha vida sumiu O meu povo nunca mais me viu Andando de correntes Tão carente, me jogaram naquele lugar Que o senhor dizia que eu ia sustentar Se eu não queria, por que ele me trazia? Claro que ele vencia só pra me explorar Eu nem queria estar aqui Foi o destino cruel e quis assim O sonho de alforria era só uma fachada Parte do que ele negava pra se aproveitar de mim E mais uma vez, eu me vi preso no trauma Cicatriz na minha alma Minha vida sumiu O meu povo nunca mais me viu Eu era o senhor, ela uma alma aprisionada Vi chegar lá no porto e levei pro meu pomar Não era a ideia certa, escravizar era a meta Minha ganância desperta, eu só quis lucrar e explorar Eu até que, usei a força Mas a justiça, não olhava para mim Era uma mercadoria, ela só não entendia Que na nossa lei do dia, o lucro tem que ser assim E logo o homem que sempre fazia o poder Fiz o mal em tantas outras casas Mano, eu sinto te dizer Que você se acorrentou num fantasma Assombrei a sua história e depois eu te vendi Como é que eu nunca mais te vi? O termo escravo, que vem da falta de calma Define o sofrimento de um destino Depois de travessias desesperadas, de uma forma desumana O homem perde tudo sem saber por quê E a saudade aparece às vezes Quando o batuque ecoa no covil Eu juro que era livre até chegar nesse Brasil O trauma, cicatriz na minha alma Minha vida sumiu O meu povo nunca mais me viu O trauma, cicatriz na minha alma Isso não é um serviço É um ciclo de vício