Não haverá mar, o velho mar, que separa Que engole sonhos em sua fúria fria, salgada Que devora corpos e esconde naufrágios na alma Já não existirá, seu rugir será silêncio Sua imensidão, uma página em branco Onde antes havia abismo, agora há a praça de ouro E a cidade desce, não sobe o homem em sua torre Mas Deus desce em sua tenda, em sua humilde glória Vede o tabernáculo de Deus com os homens Não mais um véu rasgado, não mais um altar distante Mas o Verbo que habita, enfim, sem véu, sem templo Pois Ele mesmo é a tenda, e nós, o seu descanso E lhes enxugará dos olhos toda lágrima Que mão é essa que enxuga sem ferir? Que toca a ferida e a transforma em memória? Não será o esquecimento, mas a cura plena A lágrima que um dia foi de ausência e pó Agora é orvalho na face do Eterno, e brilha A morte já não existe, o último inimigo O espinho cravado na carne do tempo Foi desarmado não pela força bruta Mas pela presença que preenche todo vácuo Onde a morte habitava, agora habita o encontro Onde havia o fim, a porta está sempre aberta Nem luto, nem pranto, nem dor As primeiras coisas passaram Passou o grito abafado no cárcere Passou a espera na sala de hospital Passou a despedida na beira do cais O que era rascunho, agora é poema completo O que era semente, agora é árvore frondosa As pedras preciosas não são meras pedras São os olhos dos mártires que brilham nos muros São as lágrimas dos profetas cristalizadas em graça O ouro das ruas não é o ouro que cobiçamos É a transparência de uma alma que aprendeu a amar Pisada pelos pés santos dos que um dia foram pó E não há Sol, porque o Cordeiro é a lâmpada Não há luar, porque a sua face é a luz A filosofia finda onde a visão começa Não se pergunta mais onde está Deus? Pois Ele é o ar que se respira, o chão que se pisa A melodia que flui no silêncio das praças Olhai Eis que faço novas todas as coisas Não um novo começo que apaga o passado Mas um novo céu que abraça a velha terra Uma nova terra que floresce da antiga espera E o que era promessa, agora é testemunho Eis que faço novas todas as coisas Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras