Virá o dia em que o medo terá a leveza de uma pena esquecida Quando a sombra da serpente não fará o coração acelerar Mas será apenas o desenho de um galho sobre a grama macia A criança, de peito ainda cheio do leite do céu Estenderá a mão pequena e trêmula de curiosidade, não de pavor Sobre a toca onde a víbora se enrola como um caracol de escamas E a víbora, irmã, não cuspirá veneno Mas lamberá aquele dedo como quem prova o mel Que escorre do favo da manhã Perguntarão: Como é possível? E a resposta será o silêncio que se aprendeu Depois de tantas lágrimas enxugadas O lobo, aquele que uivava para a Lua com fome de ausência Terá seus dentes transformados em pétalas E o cordeiro, que antes tremia como a folha no outono Deitará a cabeça sobre o flanco do antigo algoz E ouvirá, surpreso, o motor suave de um ronronar Não haverá presa, não haverá caça Apenas o respirar de dois corpos que aprendem Que o amor desarma as mandíbulas do tempo O leopardo, pintado de manchas como constelações Correrá ao lado do cabrito numa aposta boba E quem vencer será o que primeiro tropeçar na própria sombra Ao ver uma flor desabrochar no caminho O leão, esse rei de juba incendiada Curvará o pescoço poderoso para pastar ao lado do boi E ambos, de focinhos enterrados no capim Murmurarão preces de gratidão Pelo fim da cadeia que devorava a si mesma E uma criança, apenas uma, com os cabelos cheios de vento Passará a mão pela juba do leão como quem afaga um campo de trigo Seu riso será a flauta que rege a sinfonia dos bichos O urso dançará com a vaca num passo desengonçado E os filhotes, todos eles, peludos e lisos Rolarão numa bola só de inocência e pelo Descobrindo que o medo é uma língua que já não se fala Ninguém fará mal, ninguém destruirá Porque a terra, finalmente, se encharcou do conhecimento de Deus Como as águas cobrem o fundo mais profundo do mar O que era espinho, virou ninho O que era presa, virou abrigo O que era fera, virou berço E a criança, aquela mesma que brincava na toca Correrá pelo campo aberto Seguida por uma procissão de patas e cascos Asas e focinhos Num cortejo que celebra a única verdade que restou O amor é a língua que todos os viventes, enfim, aprenderam a falar E a morte, essa velha senhora Ficou lá atrás, esquecida Como um brinquedo quebrado que já não interessa a ninguém