Nossa cidadania é o céu Não por fuga da terra Mas por saudade de algo que ainda não vimos E, mesmo assim, já reconhecemos Vivemos como estrangeiros do próprio corpo Como quem sente nostalgia de um lugar Que só existe plenamente na promessa Esperamos Não como quem se resigna Mas como quem escuta passos no corredor da eternidade Esperamos um Salvador Não apenas para nos tirar do mundo Mas para nos devolver a nós mesmos Inteiros, sem rachaduras, sem cansaço na alma Ele virá E não virá apenas com glória Mas com o nome de cada ausência nos lábios Chamará pelo que partiu cedo demais Pelo que adormeceu em silêncio Pelo que foi levado em meio à oração interrompida E ninguém ficará esquecido no pó da história Nossos corpos, esses frágeis abrigos de dor Serão transfigurados O que hoje treme, amanhã dançará O que hoje manca, amanhã correrá O que hoje sangra, amanhã resplandecerá A carne, que hoje é limite Será amanhã linguagem da glória Não seremos espíritos vagando na luz Mas pessoas inteiras, restauradas, reconhecíveis Abraçaremos sem medo de perder Olhos encontrarão olhos sem a ameaça da despedida O amor, enfim, sem relógio, sem velório, sem último beijo E então entenderemos A saudade era profecia O luto era ensaio de eternidade Cada até logo escondia um para sempre Cada lágrima carregava dentro de si O formato exato do reencontro O céu não será apenas um lugar Mas um estado de ser curado Seremos quem sempre fomos chamados a ser Sem pecado nos puxando para baixo Sem medo nos segurando as mãos Sem morte rondando nossos nomes E o Salvador, com o poder que governa o universo Não esmagará nossas histórias As elevará Transformará nossos corpos humilhados Em corpos gloriosos E nossas memórias feridas Em testemunhos de redenção E quando nos virmos ali Com o rosto iluminado pela mesma luz Sem dor nos joelhos, sem nó na garganta Sem pressa, sem despedidas Saberemos com um sorriso eterno Não era o fim que esperávamos Era o reencontro Não era o céu que desejávamos Era a restauração de tudo o que amamos