Chego bem no trem das duas, mala de couro na mão Pito um fumo, olho as ruas, que aqui não tem pressa não Dá tempo ver as paisagens, as pouca gente, os clarão As sombras lá da garagem, as silhuetas de vagão Bem ali nas oficinas, juntava gente de bem Trabalhando embaixo, em cima, pra ajeitar aqueles trem Saía os bicho bufando das caverna encardida Feito dragão fumaçando depois da tarde dormida Galvão, Ramiz Galvão, o que fizeram de ti? Roubaram teus trens e a tua estação Só não roubaram tua paz e teu rio E a saudade que aperta o meu coração Pro outro lado está a ruela, casa, bodega, salão Onde eu dançava mais ela, no clube, na Associação Pertinho, o cinema dói abandonado no escuro Sem Tarzan, sem um cowboy sem cartaz, pano ou futuro E chego enfim à minha cancha, um ponto só numa linha Onde o gaudério se arrancha ao som de cusco e galinha Largo os avios, faço o mate fico olhando a plantação Bergamóta, abacate laranja-lima, limão Galvão, Ramiz Galvão, o que fizeram de ti? Roubaram teus trens e a tua estação Só não roubaram tua paz e teu rio E a saudade que aperta o meu coração Um pé de butiá no canteiro, uma roseira ressecada E um imenso formigueiro que vai do portão à escada As fruita tão tão magrinha tem cupim, ferruge e gia E a casa, coitadinha chega dá uma agonia Uma casa que foi tua de teu pai tua mãe tua irmã Agora assim, toda nua sem Adão, Eva ou maçã Viro as costas, na incerteza, sigo cego rua acima Lagrimando uma tristeza de quem não acha uma rima Galvão, Ramiz Galvão, o que fizeram de ti? Roubaram teus trens e a tua estação Só não roubaram tua paz e teu rio E a saudade que aperta o meu coração Pois quem tinha sua terra, o passado de um cristão Vê na porta que ele cerra, o fim de Ramiz Galvão Sento no primeiro bar lembrando o Galvão antigo Afago as costas de um cusco como quem perdeu um amigo Mas penso, que nesta vida, o que Deus tira e o que dá É só justiça divina pois meu destino é andar