Na cozinha ainda tem cheiro do café que ela fazia O fogão frio me lembra que hoje não tem bom dia O pano de prato no prego, do jeito que ela deixou Tem coisa que fica na casa mesmo quando a dona já foi O rádio toca uma moda que ela gostava E eu passo a mão na mesa onde ela se sentava Quem cuida de um filho na roça nunca descansa em paz Mesmo debaixo da terra, quando já se foi, ela ainda corre atrás Ela me dava o último pão mesmo ficando com fome Me chamava de meu menino antes de eu virar homem Se eu chegasse machucado, era ela que me curava Com um beijo e uma reza que o mundo não ensinava E eu grito no peito Mãe, não vai embora Ainda preciso do seu olhar Tem dor que nem o tempo cura Nem a terra vai enterrar Aí eu grito no peito Mãe, me escuta agora Mesmo que seja do céu Porque o homem que eu virei Ainda é um menino seu O lenço que ela usava ainda tá no meu bolso Quando a saudade aperta é nele que eu me seguro A vida na roça é dura, mas ela fazia leve Porque quem ama de verdade ensina até quando morre Eu lembro da mão dela me puxando para dentro Não deixe esse mundo ruim te transformar em tormento Hoje eu olho pro espelho e vejo no meu olhar O mesmo jeito que ela tinha de nunca desistir de amar Se algum dia eu ficar rico ou virar pó na estrada Tudo que eu sou nesse mundo veio da sua passada A roça me fez forte, mas você me fez gente Quem perde uma mãe perde o chão para sempre Eu grito no peito Mãe, não vai embora Ainda preciso de você Mesmo com barba no rosto Eu só sei viver por te ter Eu grito no peito Mãe, me escuta agora Onde quer que você vá Se eu tiver seu amor no peito Nada vai me derrubar