Ele acordava antes do galo cantar Com a mão calejada e o chapéu no olhar Café preto quente sem tempo para pensar A vida era dura, mas dava para sonhar Eu menino olhando aquele gigante no chão Cuidando da terra com amor e pressão Quem nasce na roça tem que ter coração É o suor que faz a plantação Mas o tempo corre mais rápido que o trem E um dia a morte chamou ele também Ficou só o cheiro da terra e do bem Que ele deixou no quintal de alguém Meu pai me ensinou a ser forte mesmo quando a vida aperta Disse: Homem não escolhe a sorte, mas escolhe quando vai tombar E hoje a roça me encara como se fosse ele a falar Meu filho, cuide dessa terra que eu volto no vento do mar Eu lembro das tardes de Sol de rachar Ele gritando: Ô menino, bora ajudar? Eu reclamando, querendo brincar, ele sorria Crescer dói, tu vai notar Rotina no barro, enxada na mão Aprendi que o mundo não dá cartão Ou você luta ou vira chão A vida no campo não tem perdão Mas quem me grita agora no curral? Só o eco batendo no mesmo local O chapéu dele pendurado no varal E eu, peão, me sentindo tão desigual Meu pai me ensinou a ser forte mesmo quando a vida aperta Disse: Homem não escolhe a sorte, mas escolhe quando vai tombar E hoje a roça me encara como se fosse ele a falar Meu filho, cuide dessa terra que eu volto no vento do mar Quando eu erro penso o que ele diria Se estivesse aqui para me dar garantia Mas ele me fez para aguentar a porfia Mesmo com o peito quebrado todo dia O céu estrelado me traz seu olhar E o som do berrante me faz recordar Do homem que nunca deixou de lutar Até a morte ter que se ajoelhar Meu pai me ensinou a ser forte mesmo quando a vida aperta Disse: Homem não escolhe a sorte, mas escolhe quando vai tombar E quando o céu me chamar e minha lida terminar Quero te encontrar na porteira pra gente voltar a plantar Meu pai, eu vou continuar Meu pai, eu não vou te faltar E quando o Sol me alcançar Eu sei, eu sei Você vai me abraçar