Uma rua escura, uma noite longa Uma rosa púrpura, uma flor de cacto Nenhum movimento, nenhuma história Nenhuma esperança, nenhum só desejo Uma rosa púrpura, uma flor de cacto Um corpo jogado numa vala escura Um corpo sem vida, um homem sem nome O rosto de um morto olhando pra dentro Uma flor de cacto, uma rosa púrpura No corpo do morto, a noite profunda Uma rua escura, uma noite longa O corpo intangível, abrupto, oco Como era seu nome? O que ele fazia? Uma vida nua, uma coisa, um bicho O rosto de um morto, as roupas de um morto As unhas de um morto, os pelos de um morto Há quem vire o rosto, há quem se esconda Evita o desconforto, evita o olhar do morto Uma vala escura, um homem sem nome Janelas fechadas, as bocas caladas Havia uma vela, mas tava apagada Os bolsos vazios, os olhos abertos Um homem sem língua, um homem sem fala Um homem anônimo, um homem sem lágrimas Já tá quase roxo, meio esverdeado O cheiro de um morto, e o cheiro de esgoto Chamaram a polícia, chamaram o IML O corpo continua, exposto, sagrado Um corpo no espaço, parado, perdido Longe de tudo, um estorvo, um enigma