Namoro

Ruy Mingas

Composición de: Viriato Clemente da Cruz/Ruy Mingas
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse ela tinha
Um sorrir luminoso tão quente e gaiato
Como o Sol de novembro brincando de artista
Nas acácias floridas
Espalhando diamantes na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia, era sumaúma
Sua pele macia, da cor do jambo
Cheirando a rosas, cheirando a rosas
Sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce
Como o maboque
Seus seios, laranjas do loje
Seus dentes marfim
Mandei-lhe essa carta
E ela disse que não

Mandei-lhe um cartão
Que o amigo maninho tipografou
Por ti sofre o meu coração
Num canto sim, noutro canto não
E ela o canto do não dobrou

Mandei-lhe um recado pela zefa do sete
Pedindo, rogando de joelhos no chão
Pela senhora do cabo, pela santa efigênia
Me desse a aventura do seu namoro
E ela disse que não
Levei à avó chica, quimbanda de fama
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu
E o feitiço falhou

Esperei-a de tarde, à porta da fabrica
Ofertei-lhe um colar e um anel
Paguei-lhe doces na calçada da missão
Sentamos num banco do largo da estátua
Afaguei-lhe as mãos
Falei-lhe de amor
E ela disse que não

Andei barbudo, sujo e descalço
Como um mona-ngamba
Procuraram por mim
Não viu, ai, não viu benjamim?
E perdido me deram no morro da samba
Para me distrair
Levaram-me ao baile do são januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meu caso
As moças mais lindas do bairro operário

Tocaram uma rumba
Dancei com ela
E num passo maluco voamos na sala
Qual uma estrela riscando o céu
E a malta gritou: Aí benjamim
Olhei já nos olhos
Sorriu para mim, sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo
E ela disse que sim
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