Ajeita a traia, companheiro Que o rio tá chamando nós De madrugada o galo cantou no terreiro Café passado forte no coador de pano A muié embrulhou a farofa e o torresmo E eu já co'a vara encostada no cano Bota, chapéu e canivete no bolso O Sol nem tinha clareado o sertão O rio espelhava o céu avermelhado Batendo esperança dentro do coração Ô rio danado, segura esse peixe ligeiro Que hoje eu não volto pra casa sem história pra contar Se ele escapar eu respeito o parceiro Mas se ele morder, vai ter brasa pra estalar No fogo de chão temperado com carinho O que a gente pesca vira bênção e pão Na beira d'água eu me sinto sozinho Mas Deus tá comigo em cada puxão Arremessei a linha mansinho na curva Onde a correnteza gosta de rodar O anzol sumiu ligeiro na espuma E o coração começou a acelerar De repente a vara vergou feito taquara O danado brigava pra se libertar Era peixe forte, ligeiro que só ele Pulando na água querendo escapar Mas pescador velho tem calma no braço Não puxa na força, respeita o tempo Na luta bonita homem e peixe Se entendem no mesmo momento Ô rio danado, hoje a briga foi boa Suou meu chapéu nessa lida varonil Trouxe o alimento que a terra abençoa Pra mesa simples lá do meu Brasil No fogo de chão chia a gordura Farofa e limão pra acompanhar Quem pesca aprende o valor da fartura E o gosto da vida na beira do rio