Campinho de terra, poeira subia Chinelo era trave, o gol explodia Joelho ralado, camisa vazia Mas nossa torcida a favela erguia Madeira torta virava magia Pipa cortando o céu que eu queria Sem ter dinheiro eu já prometia Mãe, um dia essa vida vira poesia Ela sorria cansada, mas acreditava Mão calejada no fim do dia Me ensinou que quem luta não trava Que fé acesa também é guia Meu pai falava pouco, mas eu entendia No olhar dele o orgulho crescia Chegava do trampo, camisa suja e dizia Seja maior do que eu fui um dia Panela na goteira marcando compasso Pingava no zinco, virava meu passo Luz de vela clareando o espaço Caderno amassado, futuro no braço Garrafa pet na roda da bike roncando alto Motor imaginário rasgando asfalto Subindo ladeira no pé descalço Mas no meu sonho eu já corria pelo asfalto Zoavam meu bairro, meu endereço Fiz do deboche meu adereço Riam do meu corre, da minha quebrada Transformei o caos na minha estrada O céu fechou diferente Chuva caiu persistente O rádio gritava: É urgente E o medo cresceu na frente da gente Barro e lama grudaram no chão O morro tremia, cada coração Explosão no beco, ninguém em vão Mas a vida continuava na mão Eu sou da Favelinha, pode zoar Foi lá que aprendi a lutar Se o barro tentou me enterrar Eu fiz da lama o meu lugar Zoaram meu CEP, minha condição Hoje eu falo sem pedir perdão O morro caiu naquela estação Mas não saiu do meu coração Sirene cortando o ar Helicóptero sobre o lugar Minha mãe dizia Xiuu, segura tudo que importa, calma, calma! Dia virou breu na visão Barro na boca, pressão no pulmão Vizinho cavando com a própria mão Silêncio pesado após explosão Tinha menino que era sorriso Corria descalço, sonhava ser ídolo Falava que ia brilhar, virar mito Hoje é retrato do mano com fuzil no conflito Eu falava de game, controle na mão Mas outros meninos sem opção Brinquedo trocado por proteção Destino empurrado na contramão Não romantizo, eu denuncio Infância perdida no frio Alguns viraram nome no muro Outros só ecoando no escuro Tem foto guardada na memória Tem voz que ainda ecoa na história Perdi presença, ganhei memória Levo pra sempre a trajetória Crescemos na terra batida do chão Entre fé, sirene e oração Alguns tão de pé, outros constelação Brilham na nossa imensidão Eles não voltam, eu sei Mas vivem em tudo que eu me tornei Cada vitória que eu alcancei Tem um pedaço do que eu deixei Eu sou da Favelinha, pode zoar Foi lá que aprendi a lutar Se o barro tentou me enterrar Eu fiz da lama o meu lugar Se riram de mim lá atrás O passado me fez forte demais O morro caiu, mas ficou em mim Minha raiz não sai jamais Minha mãe chorou ao ver na TV Meu pai segurou o pranto, não queria crer Tanta gente perdida, frio no coração E eu senti no silêncio: Dor e desolação Mas alguns sobreviveram, poucos a contar Firmeza na quebrada que deu orgulho no olhar Com dedo conto quem fez a vida mudar Mostrando que da lama também dá pra brilhar