A solidão é uma maré que sobe sem aviso O silêncio que o mar cansa de escutar Mas o vento sabe o que dizer O mar sempre foi minha casa e meu castigo Aprendi a ler o vento antes das palavras Medir o tempo no balanço das ondas Remando devagar, sem ver o dia clarear Moro num barraco simples, beira da praia, Paraty Viúvo há nove anos, os filhos foram pra cidade A solidão ficou, feita maré que sobe e invade E eu falava com o mar, com quem conversa com Deus Mas o mar cansou de responder quem só tem silêncio a dar E um dia, o Remo apareceu pra me ensinar a voltar Mordeu meu ombro, me arrastou pro casco, não me deixou afundar Com ele na proa, o mundo inteiro parece caber no olhar Ele chegou molhado, magro, tremendo, no frio da manhã Lambendo as feridas, olhos fundos, ficou ali, ficou Dividi o pão, o peixe, e o silêncio que sobrou Chamei de Remo, porque remar sem ele não dava mais Ele aprendeu o ritmo, a hora da maré, a hora da volta Deitado na proa, olhando o horizonte, atento aos sinais Quando eu puxava a rede, latia, feliz, pedia bis Ele entende é o silêncio, eu dizia aos meus vizinhos Mas o mar cansou de responder quem só tem silêncio a dar E um dia, o Remo apareceu pra me ensinar a voltar Mordeu meu ombro, me arrastou pro casco, não me deixou afundar Com ele na proa, o mundo inteiro parece caber no olhar Veio a tempestade, o vento virou, o mar rugiu Caí na água, tudo girava, o medo me engoliu Senti a mordida no ombro, o arrasto até o casco Chorei naquela noite, entendendo o que havia salvado Hoje o Remo tá velho, pelos brancos, olhar mais manso Mas acorda antes de mim, cutuca com o focinho e diz: Tá na hora E lá vamos nós, devagar, até a beira da água agora Na parede do barraco, uma foto com o Sol nascendo lá O mar ensina o homem a perder Mas um cachorro ensina o homem a voltar O mar ensina a perder O cachorro ensina a voltar