Era uma vez uma raposa Era uma vez um lobo Um início já contado milhões de vezes Talvez um pouco mais raro nos dias de hoje Não se sabe exatamente a espécie Até porque não importa mesmo a espécie, o gênero Duas criaturas que se encontram e se conhecem Inicialmente se conhecem dessa forma superficial Dessa forma artificial A forma que se conhecem não importa também O que importa é que foram se conhecendo Olhando com a boca Sorrindo com os olhos Vivendo suas noites longas, insones e felizes Houve então uma conexão Uma conexão que criaturas místicas acreditam O tipo de conexão que faz as criaturas acreditarem em Deus Talvez antes mesmo do sexo Talvez apenas depois do sexo Não se sabe exatamente Fato é que se conheceram Foram se conhecendo Até ter um conhecimento profundo, muito profundo Um sobre o outro e talvez Sobre esse mundo, sobre esse mundo E então um acontecimento O lobo se perdeu A raposa se perdeu A verdade é que se envolveram Com quem eles não conheciam Ou talvez eles não entendiam Porque não entender também O lobo cantou Ele não te conhece como eu conheço A raposa cantou Ela pode até te conhecer Mas só eu que te entendo Ele tem vergonha de você Ela não pensa em você Mesmo que eu não pense em você Eu nunca vou te esquecer E então cantaram Se pensar é conhecer Às vezes é preciso desconhecer E apenas se deitar no chão Na altura da sujeira que se acumula E então desejar que um coração Venha e me salve com as minhas próprias mãos Quero sentir que eu pertenço a esse mundo Ainda que eu não sinta que eu pertenço a mim mesma Ainda que eu me olhe no espelho E não saiba quem eu sou Ainda assim, prometo não sair ilesa Conhecer profundamente é se perder Conhecer profundamente é se desconhecer Conhecer é se esquecer