Hoje eu aprendi a não brigar com as coisas Deixei o vento bagunçar meus papéis E nem fiquei com raiva Talvez o vento tivesse mais razão que eu Ou só quisesse brincar comigo Aceitei Aceitei a morte da planta do vaso Aceitei que o cachorro do vizinho late sem motivo Aceitei que meu café esfria se eu me distraio escrevendo (Ah, e como eu me distraio escrevendo) Descobri que o mundo não veio com manual E se veio, foi com letra miúda demais pra minha vista cansada Então, comecei a escutar as formigas As formigas não reclamam do peso Só carregam Às vezes, param Às vezes, morrem Mas antes disso, caminham Vi beleza nisso Vi também um passarinho errar o pouso Bateu na janela e caiu de bico Depois levantou, sacudiu as penas E foi embora, como se nada tivesse acontecido Fiquei pensando Quanto do meu orgulho me impede de ser assim? De cair feio E sair cantando Aprendi que as pedras têm paciência Aprendi que a água não discute Ela contorna E que há mais sabedoria num galho seco Do que em certas bibliotecas A vida me desaprendeu de querer demais Agora quero pouco Mas quero fundo Quero a sombra da árvore O silêncio das seis da tarde O barulho de prato na cozinha E alguém que me diga Hoje não precisa vencer o mundo, não Só existir já tá bom O tempo me ensinou Que o sofrimento não é visita Ele mora Mas também aprendi a deixá-lo no quartinho dos fundos E seguir varrendo a sala Aprendi que o céu muda sem me avisar E que a única coisa que posso mudar É a maneira como eu guardo as nuvens dentro de mim Hoje, se chove Eu me molho Se venta Eu danço Se dói Eu deixo doer um pouco Mas sem fazer escândalo Não por frieza Mas por ternura A vida, no fim Não quer que a gente entenda tudo Quer que a gente abrace Mesmo sem saber o nome da coisa E isso eu sei fazer E assim, sem querer Fui ficando sábia Com as calças curtas Os pés sujos E o coração feito de barro molhado Se alguém me perguntar o segredo Vou dizer que aprendi com as lagartixas Ficar imóvel também é um tipo de coragem