Os postes apagados Me reconheceram antes da luz Como se o caminho Prendesse a respiração comigo Era um trecho conhecido Mas não inteiro Faltava o gesto Que diz segue Parar ali Era oferecer o corpo Andar a pé Era chamar o medo pelo nome Ir depressa Era mentir pro chão Então reduzi o mundo Ao giro exato do pedal Nem coragem Nem recuo Só o corpo Conversando com o escuro Eu sigo Não porque é seguro Eu sigo Porque já estive aqui Mesmo quando a luz falha O caminho me reconhece E eu continuo Devagar Mas continuo Passei por lugares silentes Que um dia prometeram abrigo Agora só guardavam O formato das ausências Nenhum sinal Nenhum aviso Nenhuma voz dizendo Vai dar certo O perigo não se afasta Ele aprende meu ritmo Aceita minha lentidão E caminha ao lado Eu sigo Não porque é seguro Eu sigo Porque já estive aqui Não há farol Não há aplauso Só esse traço invisível Que o corpo insiste Em lembrar Talvez viver seja isso Quando nenhuma escolha é certa Não parar Não correr Não explicar Apenas sustentar O movimento mínimo Que mantém o corpo de pé Eu sigo Não por promessa Eu sigo Por reconhecimento Mesmo sem luz Mesmo sem nome O caminho acontece Enquanto eu sigo E quando a luz voltou Não foi alívio Foi só confirmação Eu já estava Do outro lado Antes de perceber