Não, eu não vejo o mesmo que você Digo baixo, como quem acende Um fósforo na chuva Entre a sua janela e a minha Há um vidro que ninguém limpa por dentro Há dias Eu não faço a mais remota ideia Do que há no seu mundo E você no meu Sua mente pesca o que lhe interessa A minha também tropeça Só que tropeça em lugar diferente A gente se apoia no mesmo corrimão E volta pra casa com mãos Indiferentes Eu digo: Agora E você escuta nunca Você sorri na fotografia E eu vejo uma despedida Mesmo morando um andar abaixo Mesmo sendo meu gêmeo Mesmo na mesma beliche A escada entre nós Não é de madeira É de sentido Você tá no seu universo particular E eu no meu Duas Copas na mesma palavra Duas marés no mesmo endereço E eu não te alcanço Não por falta de amor Mas por excesso de mundos Eu não vejo o mesmo que você E ainda assim Eu te vejo Eu vejo! Você pode ser míope E meu rosto virar neblina Pode não enxergar cor nenhuma E eu virar só um som Só um peso de presença Pode ser daltônico E verde e vermelho não dizerem nada E o que é vermelho, afinal? No meu mundo é uma onda Num certo número de ciclos por segundo No seu Eu não faço ideia Do que você chama de ser Como se a música aprendesse a escutar A vida entrega mapa sem legenda E mesmo com legenda Quem garante que a palavra rio Não seja pedra no seu idioma? Acontece que eu não sei do seu mundo Nem você do meu E eu paro de brigar com isso Eu paro de te converter No meu jeito de sentir Você tem uma Copa que te atravessa E eu tenho a minha E as duas podem doer E as duas podem salvar Não existe manual Você tá no seu universo particular E eu no meu Mas se eu te der minha mão Sem te exigir o meu azul E se você me der seu olhar Sem me pedir o seu vermelho A gente atravessa Não pro mesmo lugar Pra um lugar que está entre Eu não vejo o mesmo que você Eu não faço a mais remota ideia E mesmo assim, eu fico Mesmo assim, eu fico Dois mundos não viram um Mas podem virar ponte E quando eu digo: Eu te vejo É isso Eu te vejo tentando existir Com as ferramentas que tem E eu Também E eu Também