Ela chega, sempre chega Sem sapatos, sem rosto Com o silêncio pendurado no pescoço Colar de ausências que não brilham Desfaz a casa dentro de mim Move a cômoda da esperança pro escuro Derruba risadas da prateleira Sopra poeira nos meus dias que eram claros O tempo, coitado, tenta correr e tropeça Um relógio ofegante pinga segundos cinzentos Sépia de ontem, ferrugem no tic Ela, a sombra que mora em mim Me veste de noite por dentro Desata meus passos, ata meus braços Promete: Ficar é sobreviver Eu respiro, meio, e sigo, menos Mas sigo Ela me invade em camisa branca de hospital e medo Amarra meus gestos com nós de prudência Diz que o mundo é muito alto pra hoje Tento gritar, a voz desiste no corredor E aprende com as mãos frias O peso exato da ausência As flores, pobres, sábias, murcham sem drama Sabem que há dias em que o Sol prefere não vir Ela, a sombra que mora em mim Apaga os contornos do quarto Sussurra baixinho não se move E a casa aceita, imóvel, o susto Não peço socorro, fecho os olhos Abraço meu próprio contorno pra lembrar Que ainda existe pele sob o nevoeiro E eu digo ao breu que me habita: Escuta Talvez, só talvez O amanhã se lembre de nascer E quem sabe haja Sol, nova mente