Duas palmas no ar, e um passo pra perto Um peito responde ao outro: Tum, tum, tum Faz do teu nome uma ponte, não um veredito Hoje a rua aprende a dizer: Eu te vejo Carrego no ombro um exército antigo Feito de medo, pressa, orgulho, faca invisível Mas eu não nasci pra vigiar o mundo Nasci pra caber num abraço sem senha Se eu te encaro, que seja pra reconhecer A água nos teus olhos, a fome comum O riso guardado como pão quente No centro da casa Respira comigo em quatro batidas Solta a pedra da língua, abre a mão O inimigo é um engano que canta alto Vamos baixar o volume do trovão Vem, encosta o teu coração no meu Pra ouvir que ele não quer guerra Vem, a vida é um só tambor Quando um fere, o som se quebra Diz: Você é humano, eu digo: Eu também E a noite aprende a virar manhã Vi crianças fazendo constelações Com giz e coragem no chão do quintal Vi velhos costurando o tempo Com histórias que curam sem reclamar E eu, no meio, desaprendo o punho fechado Meu braço vira asa, meu olhar vira chão Se a raiva subir como fogo na garganta Eu bebo silêncio, eu escolho canção (Um compasso de vazio aceso) Só o respirar do coro, bem nítido Depois, uma palma solitária, e outra, e outra Agora muda: O mundo gira mais claro A harmonia abre uma janela no alto Eu te chamo pelo teu lado mais vivo Não pelo teu lado mais duro E se eu cair no meu velho costume Me puxa pela luz do ombro Fica, fica humano, fica junto O abraço é um pacto sem palavra É o corpo dizendo: Eu não vou te perder Canta mais alto sem esmagar ninguém Uma cidade inteira aprendendo a pulsar Mãos no ar como quem devolve o céu Passos no chão como quem decide ficar Vem, encosta o teu coração no meu Pra ouvir que ele não quer guerra Vem, a vida é um só tambor Quando um fere, o som se quebra Diz: Você é humano, eu digo: Eu também E o medo desaprende a mandar Eu te vejo, eu te vejo E isso já é paz começando a andar