A sirene canta mais que o rádio da quebrada A paz? Só vem quando a câmera é ligada Dizem que é pra proteger, mas quem? Do lado de cá, o medo é rotina também Acordei com a janela tremendo Mais um dia, o helicóptero descendo O café esfria, o chão esquenta A operação é notícia, e a vida, legenda Dizem que é pra limpar o mal Mas varrem o chão com sangue real Enquanto isso, o político sorri Missão cumprida, ele diz por aí Dois lados da mesma farda Um com medo, o outro em guarda Um sobe pra viver, o outro pra não morrer E ninguém entende o que é vencer Servir e proteger, tá no brasão Mas esqueceram de avisar o coração Falo pouco, ajo muito Mas no fim, quem é o justo e quem é o bruto? Enquanto vocês filmam o caos Eu conto colegas no funeral Querem me chamar de monstro Mas o sistema é o diretor desse monstro Você aponta a arma, eu levanto as mãos Eu levanto a arma porque também tenho irmãos E quem protege o pobre da lei? E quem protege o farda de quem a lei não tem? Dois lados da mesma farda Um com medo, o outro em guarda Um sobe pra viver, o outro pra não morrer E ninguém entende o que é vencer Riem lá em cima, o jogo é teatro A plateia chora, mas o roteiro é barato A bala não pergunta quem é certo Nem quem só queria chegar perto Te julgo pelo fuzil que carrega E eu, pelo olhar que me nega No fim, somos peça no mesmo tabuleiro Um na mira, o outro no espelho Dois lados da mesma farda Um com medo, o outro em guarda Se a guerra é diária, quem é o inimigo? Talvez, o mesmo abrigo Se um dia a paz chegar sem uniforme A gente conversa, sem colete e sem microfone