Alumbramentos

Antônio Miranda

    Continues after the ad

    O néscio, o ignorante, o inexperto,
    Que não elege o bem, nem o mal reprova,
    Por tudo passa deslumbrado, e incerto.

    De tanto ver vencer a iniqüidade
    De tanto perseverar
    E triunfar a incompetência...

    Mui alta e nobre jactância
    Tão rasteira e sobranceira militância
    Entre contrários e correligionários
    Viceja a corja de sicários!

    Ratos e saúvas subterrâneos
    Roem e corroem
    Os alicerces de qualquer regime.

    Gente assim posicionada
    Distribuindo vantagens
    Sem qualquer merecimento
    Alastrando-se como enfermidade
    Por herdades e sesmarias.

    O poeta baiano, horrorizado
    Vendo que gente alumbrada
    De nascença
    Sendo na vida tão puta
    Vá na morte tão honrada
    Ou
    De ver ir com honra, morta
    Quem nunca teve honra em vida.

    Continues after the ad

    Que vira nome de rua
    Busto em pedestal
    Exemplo de vida
    Em textos escolares.

    De tanto ver o opróbrio
    - palavra agora em desuso
    Mas na prática, resistente

    De tanto assistir ao capadócio
    - palavra fora de moda -
    Triunfar e ser exaltado

    O poeta maldito
    - sendo, como foi, um direito entre tortos -
    Amaldiçoa os seus mortos

    Uns néscios, que não dão nada
    Senão enfado infinito.

    E confessa, submisso:

    Em amanhecendo deus
    Acordo, e dou de focinhos...

    Ouço cantar os passarinhos...

    Mas caindo na real
    Afinal, acredita
    Que nem tudo anda assim
    Tão mal, e responde:

    Sois um mecenas da veia
    Deste poeta nefando
    Que aqui vos está esperando
    Com jantar, merenda, e ceia.

    Que ninguém é de ferro
    E saboreia.

    Song details

    Composition:

    Did you see an error?

    Enviar revisão