Sombras da Caverna
Ária Brasil
Desde o meu nascimento, um mundo de escuridão
Amarrado às correntes, na mesma posição
Com outros iguais, a parede à frente é o meu lar
E atrás de nós, uma fogueira, a chama a crepitar
Vultos se movem no muro, sombras de ilusão
De objetos e pessoas, sem real distinção
Ecos de vozes, um teatro de faz de conta
Que a mente aprisionada, como real aponta
Nunca vi o Sol, nem o céu azul sem fim
Acreditava nas sombras, pois era tudo pra mim
Oh, caverna, morada da ignorância e do engano
Aonde a verdade se esconde, em um jogo profano
As sombras dançam, a ilusão nos prende ao chão
Confundindo o reflexo com a pura razão
Mas há um caminho, uma luz a queimar
Que quebra as correntes, e nos faz enxergar
Um dia, um choque, a corrente se quebrou
Com dor e com medo, meu corpo se levantou
Voltei-me para trás, e a fogueira me queimou
A luz ofuscante, a dor me paralisou
Mas fui puxado para fora, por uma mão invisível
Pelo caminho íngreme, o esforço terrível
Aos poucos meus olhos se abriram para o além
Vi as cores, a forma, o real, o bem
A princípio, a dor, o brilho a me cegar
Mas depois a beleza, comecei a enxergar
O Sol, as árvores, o céu vasto e puro
O mundo real, que vivia no escuro
Oh, caverna, morada da ignorância e do engano
Aonde a verdade se esconde, em um jogo profano
As sombras dançam, a ilusão nos prende ao chão
Confundindo o reflexo com a pura razão
Mas há um caminho, uma luz a queimar
Que quebra as correntes, e nos faz enxergar
Com a alma iluminada, e o coração a pulsar
Decidi descer de novo, para os meus libertar
Voltei à escuridão, a luz me fez cegar
E as sombras da parede não pude mais mirar
Contei a verdade, do mundo que existe lá fora
Das formas perfeitas, da aurora que se explora
Mas riram de mim, me chamaram de louco
Preferiam as sombras, e o mundo em pouco
E se eu insistisse e tentassem me matar?
Por mostrar a realidade, sem sequer hesitar
A filosofia é a luz que nos guia ao saber
A quebra das correntes, o desejo de ver
Sair da caverna é o destino do ser
Buscar a verdade, e a luz acolher
Mesmo que o caminho seja árduo e doloroso
É melhor ver o mundo, que viver um repouso
Na ignorância eterna, na prisão sem fim
Entre meras sombras, sem ver o que há em mim