Sob As Aparências

Danielle de Aguiar

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    O brilho devora os ossos, ninguém vê
    Tempo sinuoso, o estouro é num piscar
    E eu no meio disso tudo, sem entender
    Por que a gente finge que ainda vai durar

    Não quero ver esse choro, também me dói
    Sofrimento virou acontecimento
    E os apreciadores da desgraça alheia
    Tão aí, de prato cheio, todo santo dia

    Eu queria não ter essa sensação
    Resta só mais um respiro e o pulmão já sabe
    O próximo dia chegará, que ironia
    Com essa exatidão de não ter como voltar

    Vivo onde as cascas consomem o que são
    O brilho devora os ossos
    Tempos sinuosos, o estouro
    É um piscar

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    Não quero ver esse choro, também me dói
    Sofrimento virou acontecimento
    E os apreciadores da desgraça alheia
    Tão aí, de prato cheio, todo santo dia

    Eu queria não ter essa sensação
    Resta só mais um respiro, o pulmão já sabe
    O próximo dia chegará, que piada
    Com essa exatidão de não ter como voltar

    Cada passo meu já calcula o vazio, o espaço exato
    Onde o corpo aprende a não estar inteiro
    O estalo seco no meio do frio, um osso que falta
    Antes que a pose ensaie o estilhaço no vidro

    E o verniz deles nunca lasca, só brilha
    E nesse brilho a minha falta já é festa

    Resta apenas mais um respiro, o pulmão já sabe
    Como se o mundo fosse um vidro
    Alguém, lá fora
    Já virou a chave

    Eu queria
    Não ter essa sensação
    (Resta só mais um respiro)
    O pulmão já sabe, o próximo dia chegará
    (Com essa exatidão)
    De não ter como voltar
    De não ter como
    Voltar

    Vivo onde as cascas consomem o que são
    E o que sou
    Já foi

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