Talento e Formosura

Francisco Alves

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    Tu podes bem guardar os dons da formosura
    Que o tempo um dia há de, implacável, trucidar
    Tu podes bem viver ufana da ventura
    Que a natureza, cegamente, quis te dar

    Prossegue, embora, em flóreas sendas, sempre ovante
    De glórias cheia e no teu sólio triunfante
    Que antes que a morte vibre em ti funéreo golpe seu
    A natureza irá roubando o que te deu

    E quanto a mim irei cantando o meu ideal de amor
    Que é sempre novo, no viçor da primavera
    Na lira austera em que o Senhor me fez tão destro
    Terá meu estro só do que for imortal

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    Tu podes bem sorrir das minhas desventuras
    Pertenço à dor e gosto até de assim penar
    Eu tenho n'alma um grande cofre de amarguras
    Que é meu tesouro e que ninguém pode roubar

    Pois quando a dor me vem pedir alguma esmola
    Eu lhe descerro as portas d'alma que a consola
    E dou-lhe as lágrimas que vão lhe mitigar o ardor
    Que a inspiração dos versos meus só deu a dor

    E irei sonhando com o tristor da solitária flor
    Dá grande amor ao que for nobre e grande d'alma
    Darei a palma que tiver maior pureza
    Voto à beleza, por si só, mortal horror

    Terei mais glória em conquistar com sentimento
    Pensantes almas de barões de alto saber
    E com amor e com pujança de talento
    Fazer um bardo ternas lágrimas verter

    Isto é mais nobre, mais sublime e deificante
    Do que vencer um coração ignorante
    Porque a beleza é só matéria e nada mais traduz
    Mas o talento é só espírito e só luz

    Información de la canción

    Composición: Catulo da Paixão Cearense y Edmundo Otávio Ferreira

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