Excelência, pela ordem
Consta dos autos
Que compareço representado
Correto
Mas peço que conste também
Eu compareci
Trouxe uma procuração
De mim para mim
Sem intermediário
Reconheci a firma no espelho
Por excesso de zelo cartorário
Meu patrono tem poderes ad judicia
E para recorrer
Mas não existe mandato
Que o autorize por mim viver
Deram número à minha história
Classe, assunto e distribuição
Autuaram meu sobrenome
E indexaram minha aflição
Em quatro volumes coube quase tudo
Cada laudo e cada certidão
Só não coube o que eu queria dizer
Antes da conclusão
Não sou revel na própria vida
Nem terceiro na relação
Se a sentença leva o meu nome
Minha voz integra a instrução
Excelência, eu me represento
No sentido essencial
A defesa pode ser técnica
Minha voz é pessoal
Não transfiro a existência
Por mandato judicial
Sou sujeito neste processo
Não anexo documental
Se a lei exige advogado
Não pretendo dispensar
Defesa técnica é garantia
Não barreira para falar
Jus postulandi tem limites
Não é regra universal
Onde a defesa é indispensável
Preservá-la é essencial
Capacidade postulatória
Tem contorno e previsão
Mas a capacidade de narrar-se
Não depende de inscrição
Não confundo voz com habilitação
Nem conselho com substituição
Quero apenas não ser apagado
Pela própria representação
Excelência, eu me represento
No sentido essencial
A defesa pode ser técnica
Minha voz é pessoal
Não transfiro a existência
Por mandato judicial
Sou sujeito neste processo
Não anexo documental
Pessoa não cabe no processo
O processo é que lhe deve servir
Instrumento não vira destino
Rito não substitui existir
Quando a forma se torna um muro
A justiça perde a direção
Quando a técnica escuta a vida
Ganha corpo a jurisdição
Não quero vencer pelo grito
Nem perder por tradução
Quero a palavra compreendida
Antes de virar decisão
Se o direito fala por todos
Também precisa ouvir alguém
Quem julga apenas os papéis
Talvez não julgue ninguém
Está aberta a sessão
Desde que a escuta esteja aberta
Data venia
Ainda discordo
E o ônus da prova?
Não mede o valor de ninguém
A parte compareceu
E agora fala em nome próprio
Excelência, eu me represento
No sentido essencial
A defesa pode ser técnica
Minha voz é pessoal
Nenhum rito é mais legítimo
Que o direito fundamental
De existir dentro da causa
Como pessoa, não sinal
Não dispenso quem me defende
Nem desprezo a profissão
Mas nenhuma voz procura outra
Para pedir autorização
Que o patrono traga a técnica
Que o juízo traga atenção
Que a parte traga a própria história
E que se faça a tradução
Quando a forma encontra a vida
Sem calar o cidadão
O processo cumpre o ofício
De aproximar-se da razão
Vistos, ouvidos e cantados estes autos
Reconheço que nenhuma procuração
Autoriza o desaparecimento da pessoa
Declaro a parte presente
Capaz de perguntar
Discordar
Compreender
E ser compreendida
Sem prejuízo da defesa técnica
Quanto ao mais
A história prossegue
Dou por encerrada a sessão
Não a questão