O ônus da prova

Hermenêutica Ad Hoc

Regra geral
Ao autor, o fato constitutivo
Ao réu, o fato impeditivo
Modificativo ou extintivo

Mas quando a prova inteira
Está nas mãos de uma só parte
A balança já começa inclinada

Chegou aos autos uma certeza
Sem data, origem ou filiação
Vestida de papel timbrado
E acompanhada de exclamação

Tinha um retrato fora de foco
Um áudio cortado na conclusão
E a testemunha ouviu do primo
De um vizinho do escrivão

O carimbo confirma a cópia
Não canoniza a versão
Mera alegação, por mais solene
Não se converte em comprovação

O ônus da prova pesa
Mas não pesa sobre a impressão
Quem afirma, mostre o caminho
Entre o fato e a conclusão

Não há toga que transforme
Suspeita em demonstração
Sem prova bastante nos autos
Não se condena por imaginação

Ao autor, o fato constitutivo
Ao réu, na contestação
O que impede, modifica ou extingue
O direito posto em discussão

Se houve pagamento, junte o recibo
Se houve contrato, o instrumento
A memória pode ser sincera
Mas não substitui o documento

Mas a regra admite outro arranjo
Diante da desigual condição
Quem detém a prova mais acessível
Pode receber sua atribuição

Que o despacho seja fundamentado
Sem surpresa na distribuição
E que a parte tenha oportunidade
Real de cumprir a incumbência

Documento de autoria desconhecida?
Apócrifo
Captura sem contexto?
Impugnada
Perícia inconclusiva?
Não conclui
Boato reiterado?
Continua boato

Provar não é prender o mundo
Numa pasta de papelão
É construir entre fato e juízo
Uma ponte para a razão

Toda prova tem seus limites
Todo olhar, um ponto de observação
Mas reconhecer a incerteza
Não autoriza a fabricação

Na sala penal, muda a pergunta
Não é o réu quem deve provar
Que jamais praticou o fato
Que a acusação veio imputar

Presunção de inocência
Não é favor para se implorar
Cabe a quem acusa trazer prova
Capaz de a dúvida superar

Indício pode abrir caminho
Não autoriza qualquer atalho
Se a cadeia de custódia se rompe
Há um elo a ser examinado

Não se cola com eloquência
O que a prova deixou quebrar
Entre suspeitar e condenar
Há um abismo a atravessar

Indício
Não é sentença
Narrativa
Não é elemento
Certeza
Não é ciência
Suspeita
Não é fundamento

O ônus da prova pesa
Sobre a mão da acusação
Dúvida séria e razoável
Não sustenta condenação

In dubio pro reo
Não é truque de ocasião
É o limite que separa
O julgamento da perseguição

Conclusos
A certeza não compareceu
A prova pediu prazo
A dúvida estava presente
E assinou a ata

Información de la canción

Composición: Inácio Lume, Bento Sargaço, Lídia Vésper, Damião Foz y Nilo Brasa

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