Fado Mal Falado

Hermínia Silva

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    Fado triste, fado negro das vielas
    Estás farto de ser cantado, gemidinho e chorado
    Aqui há tempos deram-te mais uma volta
    Ouviu-se a voz do artista Villaret
    Falar-te em tom lencastrice silabado
    Pois vou provar-te que inté és bonito mal falado

    Mão de guitarra, calicídas, retorcidas, contorcidas
    Ai, mãos bizarras, mãos chaladas, bem caçadas, lacrimejadas
    Mãos furibundas, mãos devassas, muito fundas, muito lassas
    Aonde enfim, o fado entoa; ó pistarim dá cá uma coroa

    Eu vou contar uma história; a do Chico e a da Glória
    Viviam numa trapeira
    Ele tocava guitarra e ela era cantadeira
    Das que não tinham virtude
    Porque nem cantava o fado da Senhora da Saúde

    Com a massa que ganhavam, eram felizes, sem brigas
    Porque a casa que habitavam era de renas intigas
    Como tinham poucos móveis, era muito arrumados
    Cochichava em segredinhos o mulherio de Alfama
    Que este par de namorados
    Até juntava os trapinhos debaixo da mesma cama

    P’la janela da Glória intrava a Lua
    E o fado, esse, saía a dar voltas pela rua

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    Mão de guitarra, calicídas, retorcidas, contorcidas
    Ai, mãos abelhudas, cabeludas, façanhudas e tronchudas
    Mãos de fado, mãos disto e mãos daquilo e daqueloutro
    Ai meus irmãos, que confusão
    Eu já meto os pés pelas mãos

    Um dia o Chico não veio, Santo Deus
    Aquilo fez um transtorno à Glória por não vê-lo
    Coitadinha, teve a dor mesmo aqui no cotovelo
    Procurei-a como doida
    E quando lhe perguntei que tinha ao pé da tasca
    Cheiinha de asca só respondeu
    Eh pá eu cá tou à rasca!
    Mas nisto, ao fundo da rua dá de ventas com o Chico
    Todo feito pau dum rico, dando o braço a uma pirua

    Mas que ciúme, que drama, o resto já não tem história
    A Glória foi-se à madama, e o Chico foi-se à Glória

    E o ciúme chegou como lume queimou o seu peito a sangrar
    Foi um valente sarilho
    Com o Chico a malhar que era u nunca acabar
    Foi a madama a ir de vaca e a Glória a puxar pelos cabelos sem dó
    Foi um sarilho de truz, uma coisa liró
    Mas nisto, a Glória num grito, teve um fanico que a pôde perder
    Puxa a navalha canalha, não há quem te valha, tu tens de morrer
    Caramba, que cheiro a mortos, os plicias tortos vêm abusos e chão
    Desarmam a chaladona e deitam-lhe a mão

    Mãos carinhosas, generosas, que não conhecem o rancor
    São mãos que agarram, mãos que multam, mas que procedem sem dor
    Mãos que não sentem, quando apertam, que estão mesmo a aleijar
    Mãos que deixam nódoas negras, mãos mimosas para afagar

    O que salvou este amor foi a naifa que emperrou na figa da corrente
    Amor que já deu e levou e não matou, tem futuro na frente
    Foi lá para as duas e picona esquadra, ela fez as pazes com o Chico
    Foi isto, vai para um mês, e no lar já há três

    Porque nasceu um pimpolho, um lindo zarolho, mais lindo que o trigo
    Basta o Chico olhar para ele, para ver que ele é muito parecido consigo
    E com o perdão depois, felizes os dois, lá vão lado a lado
    Ora aqui está o fado chunga e mal falado

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