Arquitetura do Invisível

JF

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    Se a vida é um edifício de dias tão comuns
    Feito de plantas baixas e projetos muitos nus
    Eu passei anos tateando pelas paredes sem pintar
    Com medo de arriscar a cor que pudesse me mostrar
    Te conheci num corredor, num acaso de estação
    Você carregava um mapa e um sorriso de razão
    E sem dizer palavra, começou a desenhar
    Nas linhas retas da minha alma, um jeito novo de morar

    Não foi um terremoto, nem um raio a incendiar
    Foi a calma de um arquiteto que soube onde apoiar
    A primeira viga mestra que faltava pra eu sentir
    Que a estrutura balançava, mas era pra não cair

    E você construiu pontes sobre o meu abismo
    Com a matemática exata do mais puro altruísmo
    Não foi cimento e ferro, foi silêncio e foi olhar
    A arquitetura do invisível pra me ensinar
    Que o belo não está no mármore, no plano ou no final
    Mas no jeito que você encaixa a pedra fundamental

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    Eu era um livro empoeirado, num idioma já esquecido
    Com páginas rasgadas e um final desconhecido
    Você veio com a paciência, não pra reescrever a história
    Mas pra juntar com delicadeza os cacos da minha memória
    E aprendeu meu alfabeto, as entrelinhas do meu tom
    E mostrou que a minha falha não era um erro, era um dom
    Que as rachaduras que eu temia, por onde a luz podia entrar
    Eram a prova que eu era forte o bastante pra suportar

    Não foi um terremoto, nem um raio a incendiar
    Foi a calma de um arquiteto que soube onde apoiar
    O peso dos meus dias e a leveza de viver
    E me fez querer estar pronto, pra o que quer que fosse acontecer

    E você construiu pontes sobre o meu abismo
    Com a matemática exata do mais puro altruísmo
    Não foi cimento e ferro, foi silêncio e foi olhar
    A arquitetura do invisível pra me ensinar
    Que o belo não está no mármore, no plano ou no final
    Mas no jeito que você encaixa a pedra fundamental

    E se um dia esse edifício não aguentar a erosão
    Se o tempo vier forte e abalar essa construção
    Não importa se as paredes um dia forem pó
    O que importa é que existimos, e existindo, foi bom
    Porque o projeto que fizemos, desenhado a quatro mãos
    Vai viver na planta baixa gravada nos corações

    Então cantei sobre essas pontes sobre o meu abismo
    Sobre a matemática exata de encontrar você em mim mesmo
    Muito além do cimento, muito além do simples olhar
    Essa arquitetura invisível que me fez chegar
    A certeza que o mais belo, mais perfeito e mais real
    É o amor que a gente constrói, na base do tanto faz?
    Não, na base do eu quero e do eu fico e do eu sou
    Na base do que a gente é, e do que a gente construiu
    A base, é o amor

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