A Nau de António Faria

José Afonso

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    Vai-se a vida e vem a morte
    O mal que a todos domina
    Reina o comércio da china
    Às cavalitas da sorte

    Dinheiro seja louvado
    A cruz de Cristo nas velas
    Soprou o diabo nelas
    Deu à costa um afogado

    A guerra é coisa ligeira
    Tudo vem do mal de ofício
    Não pode haver desperdício
    Nesta vida de canseira

    Demanda o porto corsário
    No caminho faz aguada
    Aqui findou seu fadário
    Morreu de morte matada

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    A nau de António Faria
    Leva no bojo escondida
    A cabeça de uma corsário
    Que lhe quis tirar a vida

    Aljofre pérola rama
    Eis os pecados do mundo
    Assim vai a nau ao fundo
    Sem arte a honra e a fama

    Entre cristãos e gentios
    Em gritos e altos brados
    Para ganhar uns cruzados
    Lançam-se vivos aos rios

    Em vindo de veniaga
    Com a vela solta ao vento
    Um mouro é posto a tormento
    Por não dizer quem lhe paga

    Vou-me à costa à outra banda
    Já vejo o rio amarelo
    Foi no tempo do farelo
    Agora é o rei quem manda

    Faz-te à vela marinheiro
    Rumo ao reino de Sião
    Antes do fim de janeiro
    Hás-de ser meu capitão

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