Fala do Homem Nascido

José Niza

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    Venho da terra assombrada
    do ventre de minha mãe
    não pretendo roubar nada
    nem fazer mal a ninguém

    Só quero o que me é devido
    por me trazerem aqui
    que eu nem sequer fui ouvido
    no acto de que nasci

    Trago boca pra comer
    e olhos pra desejar
    tenho pressa de viver
    que a vida é água a correr

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    Venho do fundo do tempo
    não tenho tempo a perder
    minha barca aparelhada
    solta o pano rumo ao norte
    meu desejo é passaporte
    para a fronteira fechada

    Não há ventos que não prestem
    nem marés que não convenham
    nem forças que me molestem
    correntes que me detenham

    Quero eu e a natureza
    que a natureza sou eu
    e as forças da natureza
    nunca ninguém as venceu

    Com licença com licença
    que a barca se fez ao mar
    não há poder que me vença
    mesmo morto hei-de passar
    com licença com licença
    com rumo à estrela polar

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