A Vida Enterrou Quem Eu Era

Lamento do Sertão

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    Eu sinto saudade de quem eu era
    Antes das pancadas
    Antes das dores me moldarem
    Antes das decepções na estrada
    Eu lembro de um homem mais leve
    Mais aberto, mais inteiro
    Que ainda acreditava fácil
    Que ainda sorria por inteiro

    Hoje eu olho para trás
    E parece outra vida
    Como se aquela versão
    Tivesse sido enterrada viva
    Não pelo tempo apenas
    Mas pelo peso do que aconteceu
    Pelas mãos da vida dura
    Que me arrancaram do que eu sou e do que cresceu

    Fui perdendo pedaço por pedaço no caminho
    Cada decepção me deixava mais seco, mais sozinho
    Cada queda me ensinava a desconfiar da luz
    E o coração que era aberto foi vestindo uma cruz

    Teve dia que eu nem me reconhecia no espelho
    Só um rosto cansado
    Um olhar feito conselho
    Um silêncio pesado
    Morando no peito inteiro
    Como se a alma tivesse esquecido o próprio terreiro

    Sinto saudade do menino que eu fui
    Sem medo da alegria simples
    Do sonho sem segredo
    Da forma como eu vivia
    Sem esperar ferida
    Como se o mundo ainda fosse gentil com a minha vida

    Mas a vida não foi
    Eu aprendi do modo mais duro
    Aprendi que muita coisa quebra
    Antes de ficar maduro
    E o que me dói não é só o que perdi no meio
    É perceber que às vezes a dor apaga o brilho do meu veio

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    Eu carreguei decepções como pedras no peito
    Fui ficando mais calado, mais duro, mas sem jeito
    E sem notar, fui trocando minha essência por defesa
    Minha espontaneidade por cansaço e tristeza

    Hoje eu entendo que nem tudo
    Que eu chamei de força era real
    Muitas vezes era só um jeito
    De sobreviver ao vendaval
    Mas sobreviver não é o mesmo
    Que viver de verdade
    Eu sinto falta da minha antiga liberdade

    Tem uma nostalgia que mora
    Dentro da ferida
    Ela me chama de volta
    Para uma versão esquecida
    Não para eu fugir do presente
    Nem negar quem me tornei
    Mas para lembrar do brilho
    Que um dia eu carreguei

    Talvez eu nunca volte a ser
    Exatamente aquele homem
    Mas posso resgatar o que em mim
    Ainda responde ao meu nome
    Posso reconstruir os pedaços
    Com cuidado e paciência
    Sem apagar o que me feriu
    Mas sem viver só de ausência

    Eu quero voltar a sentir
    Sem tanto medo de doer
    Quero rir sem me vigiar
    Quero viver sem esconder
    Quero olhar no espelho
    E encontrar algum sinal
    De que ainda existe em mim
    Algo original

    Ou não o mesmo de antes
    Porque o tempo fez sua marca
    Mas alguém novo o bastante
    Para seguir outra estrada
    Alguém que honra a dor
    Mas não mora nela
    Alguém que recolhe os cacos
    E ainda abre a janela

    Talvez essa saudade
    Seja o começo da cura
    Porque só sente falta de si
    Quem ainda preserva a ternura
    E se eu sinto falta do que eu era
    É porque ainda chama
    Ainda há um homem vivo
    Em meio à lama

    Eu não perdi tudo
    Só me perdi por um tempo
    Mas encontrar de novo
    Também faz parte do movimento
    Hoje eu vejo que a essência
    Não morre de uma vez
    Ela se esconde, se cala
    Mas insiste em saber quem é

    E eu sigo reconstruindo
    Pedaço por pedaço
    Devagar como quem volta para casa
    Depois de muito caminhar
    Talvez eu nunca volte inteiro
    Ao que fui um dia
    Mas posso virar alguém
    Que carrega a própria poesia

    Alguém que aprendeu com a dor
    Mas não virou só dor
    Alguém que encontrou nas ruínas
    Um novo valor
    Eu tenho saudade de mim
    E isso dói
    Mas essa saudade também mostra
    Que ainda existe algo em mim
    Que quer voltar a ser
    Quer respirar
    Quer florescer
    Quer viver

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