Caminho nas Ruínas

Léafar Chiaro

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    O divino não grita do alto do trono dourado
    Sussurra no gesto frágil, lento, quase ignorado
    Habita o riso cansado de quem já viveu demais
    E o silêncio de um jovem esquecido nos recantos sociais

    O sagrado não mora no excesso nem na vitória final
    Mas na mão que treme ao tocar o que o mundo chama de banal
    O eterno brota onde a lógica diz que nada vai nascer
    No chão rachado da vida que insiste em florescer

    O amor não promete triunfo, não vende salvação
    É afeto que humaniza sem pedir explicação
    Tudo aquilo que fere, separa, oprime e exclui
    Não vem da fonte da vida, somente a dilui

    Não luto pra vencer num jogo viciado e cruel
    Luto pra ser leal ao que resta em mim de fiel
    Fracassar é coragem num sistema que corrompe
    Negar o aplauso fácil que a consciência rompe

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    Confundem sucesso com o pódio, o acúmulo, o capital
    Mas vencer explorando os demais é derrota moral
    Existir já é perda, é falha, é limitação
    Um vazio que pulsa no centro do coração

    Esse buraco não fecha, não pede solução
    É espaço de criação, não de compensação
    Mas o mercado transforma a falta em mercadoria
    Vende ilusões embaladas em falsa euforia

    Do luxo ao abandono, ninguém permanece presente
    Todo corpo é passagem, todo tempo é ausente
    Viver no desejo imposto, num roteiro que te lesa
    É morrer antes da morte, é uma vida que não se preza

    Então pergunta sincera, que ninguém pode calar
    O que é justo pra tua história? Como você quer estar?
    Quem você é quando o sistema não dita o papel
    Quando sobra só o osso cru do que é mel e fel?

    Que o próximo ano te ensine a falhar sem reservas
    A fazer da ruína uma forma de escolha que preserva
    Que da falta nasça sentido, da queda, direção
    E que desabroche humanidade ao redor do chão

    Porque o divino resiste onde tudo parece ruir
    Na empatia que insiste, no cuidado em existir
    Guerreiros do absurdo, seguimos sem ilusão
    Com ternura, lucidez e firmeza no diapasão

    Eu não luto pra vencer
    Eu sei que vou perder
    Eu luto pra ser fiel a mim
    Até o fim

    Información de la canción

    Composición: Rafael Silveira Chiaro

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